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Honestino, a presença do jovem líder

há 1 dia
8 min de leitura

Com filme em cartaz, a luz da trajetória de Honestino Guimarães permanece iluminando e inspirando, como também mostram dois livros da Terra Redonda.


O documentário Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, reconstrói a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil da Universidade de Brasília e uma das figuras marcantes da resistência à ditadura militar. O documentário acompanha sua formação política, sua atuação no movimento estudantil, a perseguição sofrida pelos órgãos de repressão e seu desaparecimento em 1973. Ao mesmo tempo, procura mostrar o homem por trás do militante, recorrendo a cartas, poemas, fotografias, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos e companheiros.


O filme combina documentação histórica com cenas dramatizadas protagonizadas por Bruno Gagliasso, criando uma narrativa que aproxima passado e presente. Mais do que registrar a biografia de Honestino, a obra discute memória, violência de Estado, democracia e a importância de preservar a história daqueles que desapareceram durante a ditadura. Assim, transforma uma trajetória individual em reflexão sobre um período decisivo da história brasileira e sobre seus efeitos ainda presentes na sociedade.



Dois livros publicados pela Terra Redonda também retrantam o período e as lutas vividas por Honestino. Confira abaixo os parárafos em que falam dele.


Ricardo de Azevedo, Terra Redonda, 2020.


A Comissão Regional Estudantil era composta, além de mim, pela Kauê; pelo Waldemir Bargieri, da Medicina da USP; pelo Trindade, que embora semiclandestino era responsável pelo trabalho na PUC; pelo João Carlos Figueroa, responsável pelo trabalho no interior; e a ela se agregava o Honestino Guimarães, vice-presidente da UNE, que estava na clandestinidade e acompanhava o trabalho da UNE e da AP em São Paulo. Mais tarde, já em torno de maio, a ela se agregou o Maurício Faria, que era da FEI – Faculdade de Engenharia Industrial – e que nos anos 1990 foi vereador pelo PT em São Paulo.

(...)

Em geral, reuníamos-nos na casa de um casal de simpatizantes que nós chamávamos “a tia e o marido”, no Jardim Paulistano. Passávamos o dia trancados no quarto, com as janelas fechadas para que ninguém visse ou ouvisse nada, sete ou oito pessoas. E quase todas fumavam! E quem não fumava, não reclamava! Almoçávamos lá mesmo, os tios eram muito solidários e preparavam comida para aquele pequeno batalhão. A única interrupção era de vez em quando, à tarde, quando o Honestino ligava um radinho de pilha para saber quanto estava o jogo do Vasco!

Muitas vezes nos reuníamos durante a madrugada, o que era absolutamente inútil, porque marcávamos o ponto para entrar na reunião às onze da noite, onze e meia. Começava a reunião e quando dava duas, duas e meia da madrugada, alguém dormia. Eu me lembro do Honestino sempre dizendo: “Companheiro, mobilize-se ideologicamente! Faça ginástica! Lave a cara!”. Era insuportável, ninguém aguentava aquilo. Absolutamente improdutivo. Eu, por exemplo, quando tinha essas reuniões noturnas, ia para casa e dormia a manhã inteira.

(...)

No dia seguinte, o Honestino me convocou para uma reunião. Na hora daquele ponto. Expliquei que não poderia, porque se perdesse aquele ponto não havia alternativa, o Zé Gaspar e a Célia já tinham ido para o Chile e se perderia o contato. E nenhuma organização de esquerda naquela época queria perder a oportunidade de um novo recrutamento. Afinal, éramos tão poucos... O Honestino se dispôs a cobrir o ponto para mim e eu fui para a reunião. Honestino cumpriu a tarefa, de maneira que não cheguei a conhecer o tal rapaz. O Danilo abriu o ponto para a repressão. E, portanto, quando o rapaz foi cobri-lo, a polícia estava lá e ele foi preso. Como era recruta do Exército, foi barbaramente torturado, embora não fosse sequer militante da organização e não tivesse nada a contar.

(...)

Quando a Bia me transportou, ao nos despedirmos, ela me entregou uma carta do meu amigo Honestino, na qual ele dizia que era um absurdo a minha atitude, que havia sim condições e que devíamos permanecer no Brasil, que eu era um quadro importante, que estávamos vivendo um momento decisivo na organização e que eu tinha que assumir, ele escrevia isso grifado, que na realidade eu estava tendo um “recuo ideológico”. Foi a última vez que tive algum tipo de contato, ainda que indireto, com o Honestino. No ano seguinte, ele foi preso e desapareceu junto com outros companheiros.

(...)

Em um processo que começou no início de setembro, portanto antes do golpe, e que se prolongou até outubro, foram presos Paulo Wright, Honestino Guimarães e Umberto Câmara – que era dirigente da organização no Rio –, os três dados como desaparecidos até hoje; José Carlos Mata Machado e Gildo Macedo Lacerda, assassinados pela repressão; Osvaldo Rocha, Antônio Soave, Nelson Martinez Bargas, Bia e Waldemir Bargieri, entre outros. Enfim, a organização foi praticamente dizimada. Escaparam, entre os dirigentes principais, o Jair e a Doralina Rodrigues, companheira do Umberto. Eu recebi essa notícia, com muita tristeza, na mesma noite em que saí do estádio. Aquilo para mim significava praticamente o fim da AP.

 

José Flávio de Oliveira, Terra Redonda, 2022.

 

Dedico este livro a

HONESTINO GUIMARÃES (1946/1973)

PAULO FONTELES DE LIMA (1949/1987)

Colegas da UnB, militantes do Movimento Estudantil, da Ação Popular e do PC do B, que dedicaram suas vidas à construção do socialismo e às lutas por liberdade e justiça social. Ambos foram presos e torturados pela ditadura militar.


Honestino Guimarães foi assassinado em 1973, por integrantes dos órgãos de repressão, durante violenta caçada aos participantes da APML. Seu corpo permanece desaparecido.

Paulo Fonteles foi assassinado em 1987 pelo sindicato do crime, que atuava a serviço dos latifundiários e grileiros em represália à sua luta em favor dos camponeses pobres de Ananindeua, no Pará.

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Passado esse período, eu a via repetir, quase que como um mantra, o raciocínio que ela dizia ser da mãe do corajoso e grande líder estudantil Honestino Guimarães, preso e assassinado pela ditadura, quando o regime empreendeu uma caçada sem limites de violên­cia e ódio à Ação Popular. “Preferiria mil vezes meu filho alienado, do que morto”. Mas o que elas não podiam saber é que Honestino continuaria vivo eternamente em nossas memórias!

(...)

Começava 1968 e, logo no primeiro dia de aula, quando estáva­mos na fila do restaurante da UnB, o batismo de guerra: bandejões ao ar em protesto contra a qualidade da comida. No meio do salão, um rapaz magrinho, de óculos de grau, estava sobre uma mesa fazendo um discurso, com o dedo em riste para uma pessoa embaixo, gesticulando e falando sobre a precariedade do restaurante e suas conexões com o regime político implantado no Brasil. Depois, fiquei sabendo que o rapaz que discursava era o destemido presidente da Feub, Honestino Guimarães, e o homem no chão era o representante da reitoria. Uma recepção à altura do clima de lutas estudantis que eu e meus colegas de Rio Preto iríamos viver dali para a frente.

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Entre as inúmeras invasões da UnB, sobressaiu-se uma que ocor­reu em 29/8/1968, pela violência gratuita, pela quantidade de poli­ciais envolvidos, civis e militares, Dops, juntamente com soldados das Forças Armadas, Marinha, Aeronáutica, Exército e órgãos de segurança do governo, pelo aparato bélico, além das dezenas de viaturas, coletivos militares, tanques de guerra e helicópteros. O objetivo dessa invasão era prender todos os líderes do movimento estudantil: Mauro Bulamarqui, Cassis, Paulo Speller, Samuel Babah, Lenine, Prates e Honestino Guimarães, evidenciando, desde então, o endurecimento do regime que iria culminar com o decreto do AI-5, o governo Médici, a tortura e a morte institucionalizadas no país.

(...)

No meio dessa baderna, eles atingiram com um balaço de fuzil a cabeça de um estudante da engenharia, o Waldemar Alves da Silva, que era aspirante da Aeronáutica, e um outro aluno que estava num fusca estacionado na frente da reitoria. O que recebeu o tiro na cabeça teve que passar por um período de tratamento, perdeu um olho, ficou entre a vida e a morte. Por sorte, recuperou-se. Mais de 60 estudantes foram presos nesse dia, brutalmente espancados e arrastados por veículos que saíam em loucas disparadas para lugares desconhecidos, principalmente as lideranças mais repre­sentativas, inclusive o Honestino, que foi responsabilizado pela expulsão do falso professor.

(...) 

O Pedro já havia combinado comigo que eu deveria mediar um encontro com o pessoal de Brasília e que agora estava em São Paulo, com o Honestino Guimarães. Senti-me valorizado e orgulhoso. Nesse dia, ele me informou que o encontro seria com uma mulher. Eu deveria aguardar que ela fizesse contato comigo e que isso ocorreria em alguns dias, 5 ou 10 dias depois. Em determinado momento de nossas andanças e conversações, notei algo estranho pelas ruas, uma presença inusitada de muitos militares pelas imediações. No cruzamento da Consolação com a Maria Antônia, muito próximo de onde eu morava, uma quanti­dade enorme de soldados do Exército, em trajes de combate, com fuzis, metralhadoras e muitas viaturas, se faziam presentes. Comentei o fato com o Pedro e ele não deu muita importância, considerou que deviam fazer parte dos preparativos para o Dia da Independência.

(...)

Depois disso, não sei quanto tempo, fui mandado para uma cela, o X3. Lá estavam dois militantes da AP, o Licurgo e o Walde­mir, mas eu não os conhecia e nem eles a mim. No início, ficamos distantes e desconfiados uns dos outros. Com o tempo, fomos aos poucos nos aproximando, mas falávamos somente generalidades. O Waldemir e o Licurgo falavam-se mais, percebi que tinham rela­ções anteriores, mas não quis saber do que se tratava, bastava-me o que já tinha que guardar. Decidi que três coisas eu não abriria para ninguém, de jeito nenhum: a) a questão do encontro e do dia em que faria intermediação do pessoal da AP de São Paulo com o pessoal que tinha vindo de Brasília e com o Honestino Guimarães; b) os nomes das pessoas que integravam o grupo de Brasília; c) e o endereço do Dorgival, embora eu acreditasse que ele já tivesse fugido. Quanto ao dia do encontro, eu ficava contando nos dedos para passarem logo. Que se fosse torturado além dos meus limites de resistência e obrigado a revelar tal fato, que ocorresse depois do dia do encontro, assim não haveria o risco de a pessoa ser iden­tificada, bem como da minha estória ir por água abaixo. Olhando agora, de longe, não sei se isso tinha muito sentido, mas na época eu achava que sim.

(...)

Sabe-se pelos documentos oficiais produzidos pelos órgãos gover­namentais desse período que em São Paulo foram presas dezenas de pessoas, sem falar das que foram assassinadas e das que não foram objeto de registros oficiais, como foi o caso de minha companheira Sônia. Nesse período, entre os mortos por meio de torturas perten­centes à AP, oficialmente admitidos pelo governo, incluem-se Paulo Stuart Wrigth, Honestino Guimarães, Humberto Câmara, Fernando Santa Cruz, José Carlos da Mata Machado, Gildo Lacerda e Eduardo Collier. Dentre as dezenas de pessoas presas, denunciadas, processa­das e fichadas como integrantes da AP, que passaram pela Oban/DOI/ Codi, nesse mesmo período, conforme documentos oficiais, estão: Antônio Carlos Rodrigues da Silva; Licurgo Nakasu; Elvira Vilela Nakasu; Osvaldo Rocha; Marcelo José Chueiri; Linko Fuji; José Flávio de Oliveira; José Roberto Reginato; Wilson Skorupski; Francisco José Vilela; Elizabete Ermano; Alexandre Soluik; Tertuliano Ambrósio da Fonseca; Waldemir Bargieri; Regina Maria Nogueira; Beatriz Valan­dro do Valle Bargieri; Otto José Matos Filgueiras; Maria Aparecida Guimarães Skorupski; Luís Aparecido da Silva; Cornélio Lima Filho; Carlos Alberto de Castro; Luís Cardoso; Pedro Camargo; Maria Célia de Castro Pena; Estela Maris Bilegian; Leda Regina do Amaral Quei­roz; Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho; Carlos Mariano Galvão Bueno; Eraldo Fernandes dos Santos; Everaldo da Nóbrega Queiroz, Maria Diva de Faria; Maria Célia Pinto Vilela; Maria Cecília Penteado Filgueiras de Mello; Isa Maria de Oliveira; (lista elaborada pelo SNI/SP e encaminhada aos diversos órgãos correlacionados, em 14/11/1973).

(...)

Bia Bargieri, minha irmã/companheira querida, pelo que pude­mos apurar, era a pessoa com quem eu teria um encontro, conforme havia me dito Pedro, para fazer o contato entre o grupo de Brasília, que na época estava em São Paulo, com o Honestino, com vistas à possível retomada de atuação da AP na cidade. Com certeza era ela a pessoa que os inquisidores da Oban colocaram frente ao vidro da porta do lugar onde eu estava e me perguntaram se eu conhecia. Na verdade, eu não a conhecia e nem ela a mim. Bia era carioca, arquiteta, e pertencia aos quadros dirigentes da AP. Presa não se intimidou, respondia aos algozes com altivez.


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