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O gol anulado e o tribunal de exceção

  • há 7 dias
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Capa do álbum Galos de Briga (1976), de João Bosco, no qual se encontra a canção "Gol anulado" (Criação do artista plástico gaúcho Glauco Ribeiro).
Capa do álbum Galos de Briga (1976), de João Bosco, no qual se encontra a canção "Gol anulado" (Criação do artista plástico gaúcho Glauco Ribeiro).

Em julho de 2026, quando deveriam estar sendo celebrados seus oitenta anos, João Bosco viu-se enredado numa polêmica. Ao rebater, em entrevista concedida ao Estadão a propósito de suas oito décadas de vida, as críticas dirigidas a "Gol Anulado", parceria com o letrista Aldir Blanc gravada há exatos cinquenta anos no antológico Galos de Briga (1976) e depois eternizada na voz de Elis Regina no póstumo Luz das Estrelas, o compositor mineiro deu o combustível de que ela precisava para fomentar a cizânia. A referência à canção ocupou menos de oito por cento de uma longa conversa; foi, contudo, o suficiente para que o assunto viralizasse e para que a efeméride se convertesse em processo.


Vamos estabelecer com clareza o que está em julgamento. Há a canção. Há a reação do autor à crítica. E há, sobretudo, um método de leitura, o método que condena obras do passado por conceitos que só hoje se debatem. É deste último que trata este artigo.


"Gol Anulado" é uma crônica cantada em primeira pessoa. O eu lírico é um marido que, ao ouvir a mulher gritar pelo Flamengo no segundo gol de Zico, descobre que ela não era a vascaína que supunha, e reage com a covardia do cinto. A cena é brutal, e é dita como brutal. O refrão sela o sentido: a alegria de quem ama seria como a euforia falsa de um gol anulado — isto é, um júbilo que o apito desfaz, uma felicidade que se descobre nula. Nada ali celebra o agressor. Ao contrário: a metáfora que dá título à canção é a metáfora do engano, da coisa que parecia gol e não era.


Aqui reside o primeiro equívoco da leitura acusatória: confundir a voz do personagem com a voz do autor. Aldir Blanc, cronista de ofício, psiquiatra de formação, homenageado póstumo pelo IBAP por ocasião de seu 24º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública (2020), construiu ao longo dos anos 1970 uma galeria de figuras que fala pela boca delas mesmas. O narrador de "Gol Anulado" não é João Bosco nem Aldir Blanc contando o que fizeram; é um tipo, flagrado numa fotografia. Tomar a primeira pessoa da personagem pela confissão do compositor é o mesmo erro de quem lesse Crime e Castigo como apologia do assassinato de agiotas, ou Lolita como manual de pedofilia. A literatura que denuncia o horror precisa, quase sempre, dar voz ao horror. É o preço da mímese.


A literatura dá voz ao horror para denunciá-lo, não para aceitá-lo.

O melhor argumento a favor de "Gol Anulado" não está nela isolada, mas na companhia que ela mantém dentro da própria obra de Bosco e Blanc e da MPB de seu tempo.


Tome-se "De Frente pro Crime", da mesma dupla. Há um corpo estendido no chão, e a cidade não estanca: o camelô vem vender anel, cordão e perfume barato; a baiana arma o tabuleiro do pastel; a moçada, depois de um instante de curiosidade, segue pensando numa mulher ou num time; e o narrador, do alto de sua janela, fecha-a "de frente pro crime". Ninguém em sã consciência leu jamais essa canção como um elogio da indiferença urbana. Todos entenderam o óbvio: é a indiferença que está sendo acusada, e a acusação se faz justamente pela exibição fria do descaso. Note-se, de passagem, que "De Frente pro Crime" e "Gol Anulado" partilham a mesma imagem futebolística: no rosto do morto, em vez de feições, "a foto de um gol". O futebol, nas duas, é a alienação que anestesia a violência. Quem entende uma deveria entender a outra.


Tome-se "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque. A cidade inteira humilha Geni, escarra sobre ela, e o refrão manda apedrejá-la. Só um leitor de má-fé imaginaria que Chico está do lado de quem atira a pedra. A canção é uma das mais violentas denúncias da hipocrisia coletiva e da misoginia que a nossa canção já produziu, porque encena, sem meias-palavras, o linchamento moral (seguindo, diga-se de passagem, o modelo de Bola de Sebo, famoso conto de Guy de Maupassant).


E tome-se, enfim, "Mulheres de Atenas", de Chico e Augusto Boal, do mesmo ano de "Gol Anulado". Quando os versos convidam a nos mirarmos no exemplo daquelas mulheres submissas de Atenas, o convite é irônico: não se pede que sejamos como elas foram, pede-se exatamente o contrário. A ironia é uma figura de menção, não de uso: o texto cita um valor para expô-lo, não para subscrevê-lo. Quem lê o convite ao pé da letra, inverte seu sentido.


Chico Buarque e João Bosco sabem trabalhar com maestria em todas as chaves: na denúncia pela voz do algoz ou na denúncia pela voz da vítima. Na belíssima parceria de 2011, "Sinhá", a voz é dada ao escravizado que implora ao senhor que não o cegue. A patrulha da literalidade só admite esta chave. É o sintoma de uma surdez para a polifonia que Bakhtin via no romance e que a canção herdou: a incapacidade de ouvir, numa letra, uma voz que não seja a do compositor.


A interpretação literal é a mais pobre de todas. Ela desconhece a ironia, a persona, a alegoria, o distanciamento, tudo aquilo que faz de um texto arte e não panfleto. E, quando aplicada à canção popular, produz o efeito grotesco de transformar denúncia em apologia por simples incapacidade de ler.


Há, porém, um segundo movimento na crítica contemporânea que é tão problemático quanto a leitura literal: julgar uma crônica de 1976 pelo tribunal de 2026. O anacronismo apaga o fato de que, em 1976, o debate público sobre violência doméstica era incipiente. A mobilização feminista do "quem ama não mata" só ganharia corpo na virada para os anos 1980, no rastro de casos como o do assassinato de Ângela Diniz. A tese da "legítima defesa da honra" ainda seria acolhida por tribunais de júri anos depois. A Lei Maria da Penha, marco jurídico que finalmente nomeou e tipificou a violência doméstica no Brasil, só foi editada em 2006, trinta anos depois da canção. Dizer isto não é desculpar coisa alguma: é situar. E situar é a primeira obrigação de qualquer crítica que se pretenda séria.


O leitor formado em Direito reconhecerá de imediato o que está em jogo, e reconhecerá que a metáfora do "tribunal de exceção" não é retórica gratuita. O direito civilizado repousa sobre um princípio elementar: tempus regit actum — o ato se rege pela lei de seu tempo. Daí a irretroatividade, daí a vedação da lei penal ex post facto, daí o nullum crimen sine lege praevia. Julgar uma conduta de 1976 pela sensibilidade normativa de 2026 é, na esfera da cultura, o equivalente exato de condenar alguém por uma lei que ainda não existia quando ele agiu. É a definição mesma do tribunal de exceção: o foro que se constitui depois do fato, que aplica critérios posteriores ao fato, e que, ao fazê-lo, suprime um dado básico: aquele debate sequer existia no horizonte de quem produziu a obra. Era um tempo, afinal, em que as crianças ainda cantavam “atirei o pau no gato” sem suspeitar que naturalizavam maus-tratos.


O cancelamento erigido sobre conceitos que só agora começam a ser discutidos é, nesse sentido preciso, violento e antidemocrático. Violento, porque destrói reputações e obras sem contraditório e sem proporção. Antidemocrático, porque democracia é convivência com o passado, inclusive com o passado que já não subscrevemos, e não a sua liquidação retroativa. Uma cultura que só tolera de seu acervo aquilo que passa no teste dos valores do presente é uma cultura que se condena a viver num eterno ano zero.


Convém, aqui, ser rigoroso com o próprio Bosco, porque a acusação de que ele "defenderia a violência" não se sustenta no exame do que efetivamente declarou. Bosco não defendeu, em momento algum, o gesto do agressor. Ele defendeu a canção: disse que continua a cantá-la, que ela é uma crônica, "feita dentro de um universo criativo, poético", que não é "um ato institucional" nem "uma lei". O que aflorou nele, de modo espontâneo, note-se, pois o tema da entrevista eram seus oitenta anos, não a canção, foi a irritação com o crítico que projeta o presente sobre o passado. Essa irritação, qualquer que seja o juízo sobre o tom, incide sobre o método, não sobre a vítima da história narrada.


É preciso, porém, enfrentar o que há de mais forte no outro lado.


Primeiro: mesmo intérpretes que torcem para que Bosco não seja cancelado reconheceram que qualificar a crítica de mero "identitarismo", sugerir que os críticos "precisam ser medicados" e invocar a palavra "censura" é embaralhar crítica e cancelamento. Criticar uma obra não é censurá-la; decidir não a cantar, como fez Teresa Cristina, não é proibir que outros a cantem, mas exercer a própria liberdade de repertório. A censura é ato de poder que interdita; a crítica e a recusa são atos de fala que se somam ao debate. Confundi-las é ceder ao adversário o melhor de sua munição.


Segundo: há um modelo alternativo. Quando "Com Açúcar, Com Afeto" (1975) foi criticada por feministas, Chico Buarque não esbravejou: explicou o contexto, reconheceu que naqueles anos pouco se pensava sobre o tema e deu razão, em parte, à crítica. O gesto de Chico, parceiro de João Bosco na belíssima canção mostra que existe um caminho entre a capitulação e o desdém: o de quem sustenta a obra e, ao mesmo tempo, escuta o que o presente tem a dizer sobre ela.


Terceiro: o tema não é relíquia. Pesquisa recente indica que as agressões a mulheres se elevam de modo mensurável nos dias de jogo. O que em 1976 era homenagem a Zico, hoje também denuncia uma praga que segue viva, e essa vitalidade da denúncia, longe de enfraquecer a canção, é precisamente o que a redime da acusação de misoginia. A obra que fotografa a violência para expô-la é aliada, não inimiga, de quem a combate.


"Gol Anulado" não louva o covarde: encena-o para julgá-lo, na mesma chave em que "De Frente pro Crime" encena a indiferença para acusá-la e "Mulheres de Atenas" encena a submissão para repudiá-la. A leitura literal, que confunde menção com adesão e persona com autor, é a mais pobre das leituras, e é dela que nasce o mal-entendido. Pior do que ela, contudo, é o anacronismo erigido em tribunal: o foro de exceção que condena o passado por normas que lhe são posteriores, suprimindo a pergunta elementar sobre o que se debatia à época.


A resposta correta a uma obra que envelheceu em algum de seus aspectos não é o apagamento, e sim a leitura, a contextualização, a nota de rodapé, a mediação, a crônica que a devolve ao seu tempo e a interroga a partir do nosso. Cancelar é o gesto de quem não sabe ler. Contextualizar é o gesto de quem sabe. E entre um e outro, como entre o gol e o apito, vai toda a diferença: a de uma obra rica que, decorridos 50 anos, continua sendo debatida, e a de obras silenciadas pelo cinto de couro da patrulha ideológica.


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Guilherme José Purvin de Figueiredo, é autor da Terra Redonda Editora (Onde começa o hemisfério, Paredes descascadas e Virando o Ipiranga), professor de Direito Ambiental e de Ecocrítica Literária, é Procurador do Estado/SP Aposentado. Graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte.



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