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"Abutre", de Marina Yukawa, ganha resenha de Daniel Brazil no site "a terra é redonda"

  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre a coletânea de contos de Marina Yukawa


1.

Marina Yukawa é uma jovem escritora e jornalista, nascida no Japão, mas brasileira desde os 2 anos de idade, quando se fixou (ou foi fixada) na cidade de São Paulo. Abutre é sua primeira coletânea de contos, e sua escrita causa boa impressão desde as primeiras páginas.

Original na abordagem de temas pungentes da literatura, como assédio, frustração, família opressora, presença da morte, taras e paranoias, o mundo não é cor-de-rosa na escrita de Marina Yukawa, e nem poderia ser. Com um olhar feminista, mas não panfletário, e humanista, mas não ingênuo, parte de argumentos originais e fortemente dramáticos para construir situações tensas que muitas vezes beiram “o realismo fantástico e o horror”, como destaca a apresentação de Guilherme Purvin.

A visão feminina do mundo é dominante na quase totalidade dos 18 contos do volume.  A mulher como vítima, os dilemas da gravidez, o machismo estrutural da sociedade, a onipotência patriarcal opressora. Sem escorregar em chavões, Marina Yukawa joga novas luzes em trilhas percorridas por muitas escritoras e escritores. Contos como Abutre, e também o que abre o volume, Setas que Voam de Dia, brilhariam em qualquer coletânea de contistas brasileiros contemporâneos. É instigante o conto Pó, onde a protagonista recebe um telefonema avisando que precisa ir buscar suas próprias cinzas.

 

2.

Abro aqui um parêntesis para comentar uma característica, digamos, feminina, da literatura brasileira. O que observo é uma tendência a se colocar em primeira pessoa, fato que é menos comum na literatura feita por homens. Estes criam personagens, falam de cima do pedestal da terceira pessoa, da voz narrativa onisciente. Mulheres tendem a se colocar na pele das personagens, se expõem de maneira mais explícita. Homens criam marionetes para representar os próprios sentimentos.

É fácil supor que autores masculinos são mais artificiosos, até mesmo mais covardes, evitam se expor. Mulheres seriam mais sinceras, menos falsas. Mas a experiência nos ensina a tomar cuidado com as facilidades, e no terreno movediço da criação literária nem tudo é o que parece.

Antes de tudo, é preciso frisar que estamos falando de uma tendência, não de uma regra. Temos lido dezenas de autoras brasileiras, e algumas estrangeiras, nas últimas décadas. Podemos citar de memória algumas escritoras que passam longe de se colocar em primeira pessoa em sua escrita, mas são poucas. E isso não é mérito ou critério de qualidade, apenas uma constatação de valor mais sociológico que literário.

Maria Valéria Rezende, para citar um exemplo admirável, é capaz de contar uma saga envolvente em terceira pessoa, como em O vôo da guará vermelha, e mergulhar na pele de uma personagem de forma perturbadora, como em 40 dias. É sabido que a própria vivenciou a experiência de ser uma quase mendiga em Porto Alegre, antes de escrever o livro. O resultado é uma das obras primas da literatura brasileira deste século.

Obviamente, também podemos citar grandes obras de autores masculinos escritos em primeira pessoa, e Machado de Assis ou Graciliano Ramos estão aí para nos dar razão. E não custa lembrar que uma das mulheres mais notáveis da literatura atual, a francesa Annie Ernaux, laureada com o Nobel, escreve sempre em primeira pessoa, com um viés feminista.

Essa velha questão autoral, que perpassa pela literatura, pelo teatro, cinema e até a canção popular, é parte indissolúvel do grande mistério da arte. Que importa se Caetano Veloso é o sujeito que mais coloca o “eu” nas canções, e Chico Buarque é o que mais cria personas? Como disse o próprio Chico Buarque certa vez, falando sobre o esgotamento do formato canção no século XXI, o que importa é que as canções sejam belas. Um ególatra assumido pode criar obras primas, enquanto um sujeito generoso e dotado de espírito coletivo pode assinar apenas obras medíocres.

Mesmo autores clássicos, narradores impessoais que criaram universos e multidões de personagens, não escapam da busca insaciável pelos leitores e exegetas de identificação com seus personagens. Escapa às vezes ao público que o autor pode ser o herói e o vilão num romance, colocando falas e pensamentos “seus” em qualquer das partes. William Shakespeare talvez seja o maior exemplo disso, na literatura ocidental, mas felizmente escapou da sanha dos críticos de ser identificado com Hamlet ou Otelo. Afinal, que diferença faz?

Faz, desde o século XIX, para muita gente. Quase todo autor tem sua biografia escrutinada, comparada, relacionada com sua criação. Reputações artísticas são manchadas de forma indelével se o sujeito é pego praticando as perversões que criou para seus enredos. Adolfo Caminha, o autor de Bom-Crioulo, primeiro protagonista homossexual da literatura brasileira, ferozmente atacado pelos críticos da época, reagiu dizendo que “A julgar como certos imbecis, – que os personagens de um romance devem reflectir o caracter do autor do romance, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz pratica­riam incestos e adulterios monstruosos”.[1]

Este cenário policial faz com que muitos autores procurem se manter ocultos em seus enredos ou personagens. O ápice da criação ficcional passa a ser a isenção suprema, olímpica, a capacidade de contar histórias sem contaminar ou ser contaminado pelos personagens. E arrisco a hipótese de que as autoras, por uma busca histórica de diferenciação, tentam se diferenciar desse padrão e mergulham de forma, digamos, existencial, incorporando personas politicamente marginalizadas na história da literatura. Ou da História, simplesmente.

Infelizmente, nessa era midiática marcada pela superexposição da vida íntima, de blogs confessionais, diários de adolescente publicizados e multiplicados pelas mídias, colunistas de autoajuda e charlatões de todos os calibres, a literatura dita feminina se tornou um nicho lucrativo e influenciador. Para o bem e para o mal, hoje há cada vez mais mulheres escrevendo e publicando em todo o mundo. Há momentos sublimes e outros constrangedores, e nisso não se diferenciam da literatura feita por homens.

 

3.

O que isso tem a ver com Marina Yukawa? Voltemos à promissora contista de Abutre. A quase totalidade dos contos está em primeira pessoa. É uma mulher falando, narrando seus medos, reais ou imaginários, em situações bem diversas. Ao mesmo tempo em que constrói momentos de grande força literária, a insistência provoca uma espécie de amortecimento emocional de quem lê. A linguagem – mesmo inventiva – não muda, a dicção permanece a mesma. A personagem pode morrer num conto, metaforicamente falando, mas volta no conto seguinte, em outro contexto.

Essa armadilha narrativa só emerge de forma evidente numa coletânea. Se lidos de forma isolada os contos tem identidade própria, e as diversas personas não tem como se confundir. Há algo de Julio Cortázar, um pouco de Clarice Lispector, e muito de observação da realidade, na escrita de Marina Yukawa.

Participante do Coletivo de Escritoras Asiáticas e Brasileiras, fundado em 2023, poderia colocar em cena os conflitos culturais e raciais decorrentes dessa condição, até aqui ausentes de sua ficção. Mas seu foco, nesta primeira apresentação literária, é o lugar da mulher na sociedade, independente de fronteiras ou de classe. E transforma isso não em militância rasa, mas em literatura de fato, capaz de impressionar pela força que imprime às suas personagens. Seria perfeita se ousasse um pouquinho mais, terceirizando suas emoções em personagens solidamente construídas.

____________

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.


Referência

Marina Yukawa. Abutre. São Paulo, Editora Terra Redonda, 2025, 180 págs. [https://sl1nk.com/kiiuj]


Nota

[1] BEZERRA, C. E. O. Adolfo Caminha: um polígrafo na literatura brasileira do século XIX (1885-1897). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.

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