“sobre vivências – saudações à militância” propõe reflexão sobre memória, resistência e identidade
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Em março, a Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, foi palco do lançamento de “sobre vivências – saudações à militância”, livro de Douglas Gerson Braga, publicado pela Terra Redonda Editora. A obra, que levou 7 anos para ser concluída, se apresenta como um romance de autoficção que entrelaça memória, política e
subjetividade.
Mais do que uma narrativa literária, o livro se posiciona como um manifesto de
resistência democrática. Sua origem remonta a outubro de 2018, período
marcado por tensões políticas e ameaças às instituições no Brasil. Foi nesse
contexto que o autor sentiu a necessidade de registrar experiências e reflexões
que dialogam diretamente com a trajetória da militância política no país.
Ao longo de suas 474 páginas, Douglas Gerson Braga revisita vivências pessoais e
coletivas, destacando a importância da memória histórica — especialmente no
que se refere aos 21 anos de ditadura militar — como ferramenta de formação
para novas gerações. A obra, no entanto, não se limita ao campo político.
Em um mergulho profundo de autoanálise, o autor aborda temas íntimos e
sensíveis, como a homoafetividade e os impactos da epidemia de Aids em sua
vida, antes do advento dos tratamentos modernos.
A escrita surge, assim, como um processo de autoconhecimento e reconciliação
com conflitos internos. Mediada pela ficção, evita o formato tradicional das
autobiografias, optando por uma linguagem híbrida em que realidade e ficção se
entrelaçam com liberdade estética.
O autor
Douglas Gerson Braga nasceu em Taquaritinga-SP, em agosto de 1954. Iniciou sua
militância política na adolescência. Formou-se em Direito na USP, em 1979, e
especializou-se em Direito do Trabalho e Seguro Social. É servidor público federal
aposentado. Militou no movimento estudantil e nos movimentos sociais e
sindical, entre os anos 1970 e 1990. Assessorou o Sindicato dos Bancários de São
Paulo e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), atuando inclusive na sua
fundação. Pela Central, participou dos trabalhos da Assembleia Nacional
Constituinte e representou os trabalhadores no Conselho Curador do FGTS, em
dois mandatos. Entre outras publicações, é autor do livro “Conflitos, Eficiência e
Democracia na Gestão Pública” (Editora Fiocruz, 1998).
Serviço
Douglas Gerson Braga
Trechos do livro
“Em uma confluência de tempos e sentidos, ao lado das prospecções de seu
passado, Dante acessava, no presente, novas abordagens filosóficas. Atualizando a
pauta dos valores e dos costumes, confrontava moralismos e conservadorismos
dominantes em sua vida. A absorção fluía no ambiente profissional e se fortalecia no
convívio com pessoas sensíveis e imunes a preconceitos.
Esse novo cenário o levara a escarafunchar seus conflitos, aguçara sua
consciência crítica e traduzira suas ambivalências em inapeláveis questionamentos:
como sustentar um discurso cujo epicentro era o conceito de ‘homem novo’, extraído
do marxismo, se fugia constantemente de si próprio? O ‘homem novo’ – aquele que
produz, domina e transforma a própria vida, segundo suas necessidades e condições
históricas – não caberia em um protótipo como ele. Como falar do ‘homem livre’, se
havia confinado sua mais íntima e profunda liberdade, aprisionando afetos e desejos
sob preconceitos e autorrepressão?
Dante mergulhara sua vida afetiva em um calabouço murado de contradições.
E chegara a hora de romper as grilhetas, a essa altura, uma necessidade
impostergável: aos vinte e seis anos, após mais de um ano da leitura do mapa, era um
jovem adulto experimentado nos desafios da vida, mas que jamais vivera uma
experiência amorosa ou sequer erótica.”
***
“Presentes no Colégio Sion, em São Paulo, para a assinatura da ata de
fundação, Dante e os amigos do GI compartilharam valiosas companhias:
sindicalistas e militantes das oposições sindicais; lideranças populares e integrantes
das Comunidades Eclesiais de Base e da Pastoral Operária; pessoas comprometidas
com os movimentos por moradia, transporte coletivo, saúde e educação pública;
lideranças do movimento estudantil e representantes da sociedade civil; ex-exilados
políticos, profissionais liberais, jornalistas, intelectuais e artistas, incansáveis
parceiros a cerrarem fileiras ao lado dos trabalhadores na luta democrática.
A fila para referendar a fundação do PT representava um pequeno recorte de
um grande instrumento transformador, constituído pela energia de movimentos até
então fragmentados e dispersos. Uma usina catalisadora do acúmulo gerado por
aquele imenso trabalho realizado passo a passo, dia após dia, ano a ano, de sindicato
em sindicato, de porta em porta, de tijolo a tijolo nas periferias e nos bairros pobres
das cidades.
Oficializou-se, na solenidade do Colégio Sion, um partido político a serviço da
luta pela igualdade social e pela democracia participativa, autenticamente popular e
verdadeiramente democrático, fruto do empenho das bases e da militância, forjado
nas lutas populares e sindicais.”



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