Galeria da infamia
- 25 de mar.
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Ricardo Queiroz Pinheiro

É patente a operação conduzida por Estados Unidos e Israel para inverter o legado e a responsabilidade pela violência da guerra que puseram em marcha. A agressão vem acompanhada de uma disputa feroz pelo sentido dos acontecimentos. Bombardeia-se no terreno e, ao mesmo tempo, bombardeia-se a linguagem. O objetivo é simples: deslocar a culpa, redesenhar a memória do conflito e apresentar os patrocinadores da destruição como guardiões da ordem.
Guerra suja envolve assassinato de crianças e a busca da redenção por fazê-lo.
Esse mecanismo acompanha a história das potências imperiais. A força bruta raramente se apresenta em público com seu nome verdadeiro, vem recoberta por uma retórica de segurança, estabilidade, defesa e racionalidade. A guerra ganha o figurino da prudência. A escalada ostenta o nome de contenção. A punição coletiva comparece como resposta necessária e racional.
Assim se fabrica uma aparência moral para o exercício sistemático da devastação.
Vivemos um momento particularmente agudo da biografia do cinismo. A cada hora, nas redes sociais, nos portais de notícia e nos circuitos de comentário instantâneo, surgem imagens descontextualizadas, manchetes emocionalmente dirigidas e textos apelativos voltados a induzir uma conclusão previsível: o grande perigo do mundo estaria concentrado no país dos “aiatolás assassinos”.
Todo o resto deve ser percebido como reação compreensível, ainda que despeje morte em escala industrial.
A linguagem da grande imprensa participa ativamente dessa operação. Os inimigos do Ocidente surgem como essências demoníacas, quase fora da história, enquanto os dirigentes do bloco atlântico aparecem como homens duros, controversos, pressionados pelas circunstâncias, porém sempre revestidos de algum vestígio de legitimidade. Com isso, a violência deixa de ser examinada em sua materialidade concreta e passa a ser distribuída segundo uma hierarquia política da compaixão.
Algumas mortes pesam; outras entram na contabilidade muda dos danos toleráveis.
Israel e Estados Unidos disputam mais que uma frente militar. Se envolvem do poder de definir quem pode ser reconhecido como vítima, quem terá sua dor narrada com solenidade e quem será reduzido à condição de número, de sombra ou de ameaça abstrata. Esse comando sobre os enquadramentos morais constitui parte decisiva da guerra. Quem controla o como é narrado procura controlar também a escala de humanidade concedida aos corpos atingidos.
Nesse ponto, o orientalismo volta a cumprir sua velha função. O “aiatolá” surge como caricatura pronta para consumo ideológico, condensando fanatismo, irracionalidade, atraso e ameaça permanente. Pouco importa a história efetiva do Irã, suas contradições internas, suas disputas sociais, sua inserção regional e o peso objetivo das pressões externas. O que importa é a utilidade política de uma imagem simplificada, ignara, apta a justificar cerco, sabotagem, sanções, assassinatos seletivos e guerra aberta.
A decomposição moral do liberalismo ocidental aparece inteira nesse teatro. São os governos que invocam a ordem internacional violam o direito internacional sempre que seus interesses estratégicos exigem. São lideranças que discursam sobre democracia convivem serenamente com ocupação, apartheid, limpeza territorial e punição coletiva. São porta-vozes que exigem moderação de seus adversários garantem cobertura diplomática, militar e simbólica a aliados especializados em destruir populações inteiras. A hipocrisia organiza o centro de operações.
Trump e Netanyahu encarnam esse tempo com nitidez brutal. Um faz da grosseria imperial um método de comunicação política. O outro administra a matança com a frieza de um burocrata da exceção permanente. Ambos condensam uma mesma lógica histórica: supremacismo, militarismo, propaganda, chantagem moral e naturalização da morte em massa. Seus nomes ocupam um lugar específico no presente porque exprimem sem pudor aquilo que o Ocidente frequentemente prefere formular em voz mais baixa.
Por isso, já conquistaram espaço na galeria da infâmia moderna. Hitler, Mussolini, Leopoldo II e tantos outros compõem uma linhagem de poder fundada na desumanização, no culto da força e na administração calculada do sofrimento alheio. A comparação não pede equivalência mecânica entre contextos históricos. Ela aponta uma continuidade mais funda: a permanência de formas políticas que transformam populações inteiras em matéria sacrificável, enquanto seus dirigentes se apresentam como fiadores da civilização.
E não esqueçamos: há sempre auxiliares diligentes em circulação. Vários Himmlers reaparecem sob vestes atualizadas, espalhados pelo campo pútrido da história. Alguns falam com a voz técnica do especialista. Outros escrevem editoriais, produzem relatórios, moderam debates televisivos ou oferecem justificativas acadêmicas de aparência respeitável. Sua função consiste em higienizar o horror, retirar o sangue das palavras e oferecer à barbárie um idioma administrativo, elegante, palatável para consciências acomodadas.
Esse dispositivo depende também da fadiga pública. A repetição incessante de mentiras, a intimidação moral, o excesso calculado de ruído e a saturação das imagens acabam produzindo um estado de cansaço político. Nesse ambiente, muita gente se rende menos por convicção do que por esgotamento. A versão dominante se instala porque circula sem trégua, ocupa todos os canais e pune qualquer dissidência como se fosse cumplicidade com o mal absoluto.
Cabe então restabelecer o nexo entre força, interesse e responsabilidade histórica. A escalada violenta nasce de Estados com capacidade militar esmagadora, cobertura diplomática robusta e ambição geopolítica de larga escala. O centro da destruição está ali. A propaganda trabalha justamente para esconder esse fato elementar, deslocando a atenção para figuras demonizadas que funcionam como álibi moral do massacre.
Em tempos assim, a linguagem conserva uma tarefa decisiva: devolver ao crime seu nome e recusar aos carrascos o privilégio da inocência. Também por isso, toda prudência verbal excessiva acaba servindo ao agressor, toda falsa simetria embaralha responsabilidades concretas e toda neutralidade afetada oferece abrigo retórico à barbárie. É preciso agir, também, verbalmente.
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Ricardo Queiroz Pinheiro é bibliotecário de biblioteca pública em São Bernardo do Campo, mestre em Ciência da Informação (ECAUSP) é doutorando em Ciências Humanas e Sociais (UFABC). É autor do livro "Participação social na política pública do livro e leitura: a construção do PMLLLB de São Paulo" (Terra Redonda, 2023)





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