“Elisa ficava só me observando, como uma bióloga que, diante do microscópio, testemunha o crescimento do mofo num pêssego”, diz o narrador de um dos contos lúgubres que compõem esta obra. O adjetivo lúgubre é do próprio autor, que usa também palavras como morbidez para qualificar o livro, “retrato dos anos de horror político e sanitário”. Como a personagem, Guilherme Purvin observa o mofo ao redor de um pêssego em decomposição, avançada a ponto de já nem se reconhecer nele uma fruta. Entretanto seu olhar não é de cientista a destrinchar racionalmente o bolor da vida social. E sim a mirada do contista a descascar as paredes de uma casa decadente, descobrindo o que está por trás de camadas sucessivas de tinta. Com sensibilidade irônica, vai revelando o ranço disforme que toma conta da vida de uma miríade de personagens cuja existência, desprovida de sentido, invade as páginas da obra. Em cada uma delas aflora a irracionalidade de um tempo de paredes ruindo aos olhos do leitor, envolto na atmosfera de estranhamento. A banalidade da violência no cotidiano, a miséria afetiva e sexual em meio à degradação do meio ambiente e das relações sociais ganham forma em escritos que observam o mundo de um ponto de vista marginal, e com o humor peculiar de Guilherme Purvin.
Marcelo Ridenti, professor de Sociologia (Unicamp). Autor de “Arrigo” (romance) e “O segredo das senhoras americanas”.
148 páginas
14 x 21 cm
Ilustrado por Sergio Papi
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SKU: 978-65-81026-43-1
R$ 56,00Preço
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