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Um passeio pela TV brasileira


"Contamos histórias para poder viver” – definiu a jornalista, roteirista de cinema e escritora americana Joan Didion (1934-2020), uma das precursoras do Novo Jornalismo dos anos 60/70. A frase abre “O Álbum Branco” – livro de 1979 que reúne seus textos escritos para a mídia impressa nos Estados Unidos. Compilar artigos publicados costuma ser uma cilada. Pode resultar em coisa datada e prisioneira do efêmero.


Diante dessa armadilha, o jornalista Gabriel Priolli soube se safar com brilho em “Astros em Trânsito”, recém-lançado pela Editora Terra Redonda. Ao reunir 35 artigos escritos para jornais e revistas, Gabriel – que atuou também em grandes emissoras de televisão - traça, com habilidade, um passeio pela TV brasileira em perfis de seus astros: Chacrinha, Sílvio Santos, Walter Clark, Xuxa, Chico Anysio, Jô Soares, Regina Duarte, Hebe Camargo e uma penca de outros estrelados.


O livro faz da metáfora astronômica um roteiro em cinco etapas: como surgiram os astros (“Big Bang”); períodos de brilho (“Magnitude”); as viradas e polêmicas (“Oscilação”); sombras no percurso (“Eclipse”) e por fim, os últimos instantes (“Extinção”). O livro “Astros em Trânsito” revela pequenos, mas importantes detalhes. É saboroso saber, por exemplo, que Ana Maria Braga, repórter da TV-Tupi nos anos 70, foi – antes de passar para o formato do seu programa para televisão - diretora comercial de revistas femininas da Editora Abril por longos anos. Nesse campo do marketing, nunca foi novata. Ou que Sílvio Luiz, narrador esportivo irreverente, foi também juiz de futebol. E que a hoje considerada extremista de direita Regina Duarte foi ícone da afirmação libertária da mulher sobretudo como protagonista da série “Malu Mulher” dos anos 80.


O livro de Gabriel revela também que, ao ser entrevistado, Jô Soares (1938-2022) incomodava-se com perguntas sobre assuntos que não lhe eram agradáveis. Justo ele, quase sinônimo de “talk-show” no Brasil. “Astros em Trânsito” vasculha ainda figuras ocultas na memória de poucos como Idalina de Oliveira, garota propaganda da TV Record que se transformou em atriz no papel de Silvana, a parceira do “Capitão 7”, novela juvenil de sucesso nos anos 60.


Gabriel Priolli introduz cada artigo seu com textos atualizados que situam o contexto da época da publicação. E acrescenta notas explicativas no rodapé, esclarecendo expressões usadas na mídia e até nas ciências sociais e políticas. Ao reconhecer o valor das telenovelas, Gabriel confidencia ter consigo, até hoje, cópia de um capítulo de “Eu Prometo” – a última telenovela de Janet Clair (1925-1983). É um manuscrito de Janet elaborado no leito do hospital onde ela morreu de câncer, aos 58 anos de idade. “Ela ajudou o povo brasileiro a encontrar momentos de conforto às 8 da noite” – escreve Gabriel com a ótica de um “telescópio sempre curioso” com a dança desses astros em trânsito.


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Fernando Zamith é jornalista, assessor de comunicação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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