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Afirmar a utopia

  • 9 de fev.
  • 6 min de leitura

Sandro Kobol Fornazari



Uma das grandes contribuições de Nietzsche para a filosofia é, sem dúvida, o método genealógico. Compreender o que é esse conceito de genealogia da moral é talvez a grande chave para o entendimento da filosofia nietzschiana. Com base nesse critério, Nietzsche vai, por um lado, fazer uma crítica à metafísica e à religião e, por outro lado, colocar novas exigências para o pensamento filosófico, para a ciência, para a moral e para a política.


Ao subverter, com esse método genealógico, a dialética do senhor e do escravo em Hegel, Nietzsche introduziu diversas novas questões na filosofia, que não cessam de ser retomadas e relançadas desde então, inclusive à luz de problemas que já são outros. Há mesmo quem prefira chamar Nietzsche de aristocrata, sem compreender a própria definição do conceito de moral dos nobres, contraposta à moral escrava. Sem dúvida, os autores deste Maravilhamento como êxtase em Nietzsche: para uma nova utopia vêm tentar desfazer certas distorções e má compreensões da filosofia nietzschiana nesse e em outros aspectos. Nesse sentido, aproveitam para provocar os detratores ao avançarem à interessante hipótese, que chamam de utopia: no bojo de uma transvaloração dos valores, tal como preconizada por Nietzsche, como seria uma sociedade de senhores, esses nobres transgressores da moral estabelecida, afirmadores da vida, que se colocariam a tarefa de superar tudo o que nas sociedades contemporâneas apequena a vida? E não se trata apenas da moral cristã, mas também da própria lógica capitalista de busca desenfreada por acúmulo de bens e de status, visando uma autorrealização centrada apenas no individual, desconsiderando a imensa fabricação de miséria e destruição do equilíbrio ecológico no planeta.

Comecemos, no entanto, reencontrando o texto de Nietzsche, em que ele define a moral dos nobres e a moral de escravos. Trata-se do § 260 de Além do bem e do mal:


Numa perambulação pelas muitas morais, as mais finas e as mais grosseiras, que até agora dominaram e continuam dominando na terra, encontrei certos traços que regularmente retornam juntos e ligados entre si: até que finalmente se revelaram dois tipos básicos, e uma diferença fundamental sobressaiu. Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos.


Vemos que Nietzsche assume inicialmente o ponto de vista que poderia ser o de um historiador, quer dizer, ele afirma que seu ponto de partida é a observação e a análise das muitas morais que exercem domínio sobre os seres humanos, o que certamente depende de um trabalho com as fontes de sua época que documentam essa moral, sejam os livros sagrados, a filosofia, a literatura, as descrições de costumes e rituais de diversos povos. Dessa observação daquilo que é descrito como factual, ele consegue apreender dois tipos básicos de moral: a moral dos nobres e a moral dos escravos, que remetem a duas formas opostas de lidar com a existência, de dar sentido à vida.


Na moral dos nobres, o ato criador de valor é a afirmação da diferença, quando os nobres se tornam alegremente conscientes de sua diferença em relação aos seres hierarquicamente inferiores. O homem de espírito elevado considera orgulhosamente a si mesmo como bom. Tal era a forma como os nobres gregos se designavam a si mesmo, os áristos, termo que está na origem da palavra aristocracia, que designava o homem excelente, mais nobre, melhor, que era visado como o ideal da formação dos membros da sociedade, da paideia grega. Nietzsche cita também os guerreiros vikings como exemplo da realização da moral dos nobres. A profunda reverência em relação à origem e à ancestralidade é outra característica dessa moral. O nobre não espera ser aceito, ele antes cria valores, honrando a si mesmo a partir de sua felicidade, sua plenitude e seu poder. Seu poder se exerce espontaneamente e está sempre a serviço de uma vida que afirma a si mesma. E quem é o mau da moral dos nobres? Não existe o mau, existe o ruim, que é sinônimo de desprezível. O nobre despreza o covarde, o mesquinho, o desconfiado, o mentiroso, o adulador, o que age de acordo com as conveniências e com a utilidade.


Na moral dos escravos, por sua vez, quem moraliza são os oprimidos, sofredores, fracos, inseguros, cansados de si. Sua perspectiva é a do pessimismo em relação à situação do homem sobre a terra, para eles, a terra é um vale de lágrimas e os seres humanos estão condenados a uma existência de sofrimento, a vida é sofrimento e, portanto, não vale a pena de ser vivida, é apenas um fardo a ser carregado, um peso a ser suportado com vistas a uma recompensa, que frequentemente é projetada para após a morte. Sua principal virtude é a compaixão, como busca de alívio para o que sofre, o que ele mais honra é a humildade, porque os humildes são inofensivos, o que ele mais teme é o seu tipo oposto, o nobre, porque ele inspira medo. Quando o escravo estabelece valores, desse modo, o mau é o nobre, o que inspira temor, enquanto o bom é o lado que resta da oposição, ou seja, o bom é ele mesmo. O primeiro ato criador, na moralidade escrava, é o Não que ele dirige ao nobre, justamente porque ele é uma ameaça, ao nobre ele imputa a marca da maldade. Somente depois ele dirige o olhar para si mesmo, como ser benévolo, inofensivo e, acrescenta Nietzsche, “talvez um pouco estúpido”, no sentido de limitado intelectualmente.


Assim, enquanto a moral dos nobres é a afirmação da vida e da diferença, a moral dos escravos é a negação dessa vida que se afirma, é uma acusação que paira sobre a vida, ela somente é capaz de afirmar a si mesma a partir da negação da diferença e, portanto, do nivelamento por baixo das potencialidades humanas. Os escravos são os medíocres, que temem a alegria e a felicidade daqueles que afirmam a vida mesmo no que há de mais problemático e doloroso, os medíocres querem tornar os homens na sua imagem e semelhança porque somente assim podem exercer comando. Apenas emasculando os nobres, os medíocres podem exercer o poder.

Um mal-entendido recorrente é pensar a moral dos nobres como a moral de quem detém o poder, num regime social qualquer. Raramente esse é o caso, como com os gregos aos quais já nos referimos. De modo geral, o governante tem como princípio de ação a recusa da diferença e o desejo de ser reconhecido. Mas somente os valores estabelecidos são capazes de determinar quem deve ser reconhecido como mais poderoso e quem deve ser acusado de ser diferente.


Os valores estabelecidos dizem respeito a muitas coisas diferentes. São valores religiosos, princípios metafísicos, paradigmas científicos, distinções sociais, atribuições de poder. Qualquer uma dessas esferas é passível de uma avaliação genealógica. E de fato é isso que Nietzsche faz. Se ele faz uma crítica radical à modernidade, é porque ela está permeada em todos os campos por uma desvalorização da vida e por uma moralidade escrava, como se filósofos, cientistas, políticos quisessem ressuscitar o “velho Deus” (Cf. Além do bem e do mal, §10) que a modernidade matou. O “velho Deus” aparece agora, para a modernidade, sob a aparência da verdade científica, da glorificação do indivíduo, do Estado e, finalmente, do Capital como principal instância doadora de sentido.


Na modernidade, a moral de escravos torna-se essencialmente uma defesa da utilidade. Para o escravo somente tem valor o que é útil. Ora, o que é útil na modernidade senão o que é passível de permitir a valorização do dinheiro e o reconhecimento social a partir da quantidade de bens que se possui? A cultura, o lazer, o trabalho, as pessoas são medidos pelo quanto de dinheiro que podem obter. Esse é o critério usado pela moralidade escrava para determinar quem merece reconhecimento social e quem pode ser excluído sem afetar o bom andamento das coisas.


Os que estão no poder desejam o reconhecimento com base nos valores estabelecidos, são escravos dos valores estabelecidos, querem que os outros lhe atribuam tais valores. Por isso, não são e não podem ser criadores, na medida em que eles assumem as responsabilidades da conservação dos valores que lhe são atribuídos. Nesse sentido, a fala do poder está sempre preenchida pelas exigências da moral dos escravos, que nega as diferenças e as possibilidades da criação do novo. Os homens de espírito elevado, que são criadores de valores, são sempre neutralizados por quem tem o poder, são impedidos ou tenta-se impedi-los de criar em nome da conservação dos valores. Daí porque, em Nietzsche, a história opera sempre por saltos, por rupturas, a partir dos tensionamentos provocados pelos nobres. O progresso é a ideologia dos escravos, dos que desejam a manutenção dos valores estabelecidos, enquanto os grandes homens são os criadores do novo: Zumbi dos Palmares, Lênin, Che Guevara, Gandhi, Mandela.


Daí a relevância da hipótese colocada por Mauro Araujo de Sousa e Tiago Dóbos de Moraes neste livro, afinal, seria possível sustentar a afirmação da diferença feita pelos nobres, sem que isso implique a opressão e o autoritarismo, sem que a diferença seja mero pretexto para subjugar os mais fracos? Os “homens de espírito elevado”, uma vez no poder, seriam capazes de fazer da afirmação da vida um princípio de regulação do funcionamento da sociedade?

Questões difíceis e delicadas as quais este livro não se esquiva de enfrentar e, com isso, diante do maravilhamento da existência, de ser capaz de afirmar a sua utopia.

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Sandro Kobol Fornazari é professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo / SP.

Este artigo é o prefácio do livro "Maravilhamento como êxtase em Nietzsche: para uma nova utopia" de Mauro Araujo de Sousa e Tiago Dóbos de Moraes, que será lançado dia 27/02/2026 na Livraria Martins Fontes Paulista e já esyá em pré-venda em nosso site.

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