O Sul como Norte: uma cartografia viva da cultura periférica em Santo André
- terraredondaltda
- 23 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
Um atlas-manifesto inverte o mapa da cidade e coloca as periferias no centro da produção cultural. Acesse a versão digital grátis neste link.

Resultado de uma parceria entre a Rede Beija-Flor de Pequenas Bibliotecas Vivas de Santo André e a Terra Redonda Editora, o livro O Sul como Norte é um atlas vivo que mapeou fazedores e fazedoras de cultura da porção sul da Macrozona Urbana do município, reposicionando o olhar sobre Santo André e questionando as hierarquias que historicamente organizam o espaço urbano.
Mais do que um levantamento cartográfico tradicional, O Sul como Norte propõe uma cartografia sensível, construída a partir da escuta, da caminhada e do encontro. O livro, num eloquente formato grande e colorido, combina mapas, dados, narrativas, entrevistas, fotografias e ilustrações para revelar aquilo que os mapas oficiais frequentemente silenciam: a vida cultural intensa que pulsa nas favelas, comunidades urbanas e territórios periféricos. Ao fazer isso, a obra desloca a noção de cultura como evento pontual ou mercadoria institucionalizada, afirmando-a como prática cotidiana, processo coletivo e forma de existir.
A escolha do sul de Santo André como território de investigação não foi aleatória. Trata-se de uma região marcada por profundas desigualdades socioespaciais, onde se concentram morros, vales, encostas, áreas de proteção ambiental e um número significativo de favelas e comunidades urbanas. Ao mesmo tempo, é nesse espaço que florescem bibliotecas comunitárias, saraus, coletivos artísticos, rodas de samba, batalhas de rima, grafite, práticas espirituais, ações educativas e redes de cuidado. O livro evidencia que essas iniciativas não surgiram "apesar" da precariedade, mas em diálogo direto com ela, como respostas criativas à ausência histórica de políticas públicas estruturantes.
O Sul como Norte articula análise territorial e narrativas de vida sem hierarquizar saberes. O conhecimento acadêmico dialoga com o conhecimento do chão, e a leitura da cidade se constrói a partir das trajetórias concretas dos fazedores e fazedoras de cultura. Cada perfil apresentado não funciona apenas como biografia individual, mas como expressão de processos coletivos, vínculos comunitários e circuitos culturais que atravessam a cidade. Assim, o livro mostra que cultura não se limita a equipamentos formais ou agendas oficiais: ela acontece na garagem emprestada, na viela, na praça, no portão entreaberto, na biblioteca improvisada, no corpo em movimento.
Ao longo da obra, a desigualdade aparece como geografia. O relevo, a distância, o transporte precário, a ausência de serviços e a concentração de investimentos no centro da cidade são analisados como elementos que produzem invisibilidade. No entanto, o atlas não se limita à denúncia. Ele revela como os fazedores de cultura constroem trajetos, criam pontos de enraizamento, estabelecem circuitos e transformam pedaços da cidade em espaços de pertencimento. Onde o planejamento urbano falhou, a cultura inventou caminhos. Onde o Estado se ausentou, surgiram redes de solidariedade, afeto e resistência.
A noção de “inversão do mapa”, central no livro, opera em múltiplos níveis. Simbolicamente, afirma que o sul também é norte — ou seja, que os territórios periféricos são referência, centro de produção simbólica e fonte legítima de conhecimento. Politicamente, questiona modelos de formulação de políticas públicas que ignoram os saberes produzidos nas quebradas. Metodologicamente, propõe que planejar a cidade a partir das favelas e comunidades urbanas não é concessão, mas condição para a construção de justiça social e cultural.
Nesse sentido, O Sul como Norte ultrapassa o formato de atlas descritivo e se aproxima de um manifesto. Ao valorizar os fazedores e fazedoras de cultura como agentes centrais da vida urbana, o livro convoca o poder público, os gestores culturais, os pesquisadores e a sociedade civil a repensarem seus critérios de reconhecimento. Não se trata apenas de ampliar o acesso aos editais ou descentralizar eventos, mas de reconhecer a cultura periférica como tecnologia social, como produção de cidade e como fundamento de políticas públicas mais justas e eficazes.
Por fim, a obra reafirma que cultura é direito humano. Ao mostrar bibliotecas comunitárias como espaços de cuidado, formação e imaginação, saraus como arenas de escuta e pertencimento, e coletivos culturais como redes de sobrevivência, O Sul como Norte demonstra que a cultura não é ornamento da cidade, mas parte de sua infraestrutura vital. Reconhecer isso é reconhecer que a cidade só existe plenamente quando todas as suas vozes contam.
O livro O Sul como Norte será lançado dia 2/2/2026, às 19h30, na E.E. Professor Waldomiro Guimarães: R. Dom Henrique - Vila João Ramalho, Santo André - SP






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