top of page

O protagonismo das monjas há 25 séculos

há 6 dias
4 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

O livro "A lamparina escondida" resgata o legado das praticantes budistas. Com cem capítulos e 420 páginas, obra lançada recentemente ganha tradução brasileira.


Ana Elizabeth Diniz, especial para O TEMPO, 29/09/2026.


A monja Waho é responsável pela coordenação e revisão da tradução da obra.  Foto: Alex Silva (Hokyo)/Divulgação
A monja Waho é responsável pela coordenação e revisão da tradução da obra. Foto: Alex Silva (Hokyo)/Divulgação

Em 2013, duas mestras norte-americanas do zen-budismo — uma monástica, Zenshin Florence Caplow, e uma leiga, Reigetsu Susan Moon — editaram em inglês o livro A Lamparina Escondida: Histórias de 25 Séculos de Mulheres Despertas.


A obra acaba de ser publicada no Brasil, com tradução inédita para a língua portuguesa, feita por membros da comunidade do Mosteiro Urbano Zen Therigatha, em São Paulo, em parceria com participantes de outros estados e países.


São cem capítulos e 420 páginas que revelam a importância das mulheres na história do budismo, desde a época de Buda até os dias atuais. Estamos falando de 25 séculos de história e resgate. Cada capítulo traz comentários e reflexões de professoras budistas da atualidade e de diversos países, etnias e tradições, com o objetivo de ajudar na conexão com os ensinamentos dessa milenar tradição espiritual.

Sandra Degenszajn foi ordenada monja em 2007 e, desde 2014, é responsável pelo Mosteiro Urbano Zen Therigatha, que, junto com a Terra Redonda Editora, fez a edição brasileira. Ela ficou responsável pela coordenação e revisão da tradução da obra.


“Nasci em uma família de religião judaica, mãe e pai, ambos judeus. Estudei em um colégio israelita até os 14 anos, fundado por judeus poloneses, comunistas. Precisava lidar com a dor da morte muito cedo, e isso marcou minha procura por respostas: por que algumas pessoas, privações, sofrem pela falta nessa vida, e outras, não? O que é a vida? O que é a morte? Como lidar com esse vazio?”, relembra a monja.

E ressalta: “Foi no budismo que encontrei um lugar onde essas perguntas fizeram muito sentido e meu coração se apaziguou”. “Aqueles que morrem, vivem em nós! Cabe a você decidir como quer mantê-los vivos. Sempre respondo que cheguei ao budismo pelo sofrimento”, detalha.


Como se trata de um livro com histórias de mulheres, pergunto à monja quem é a mulher Waho. “É aquela que sonha com uma vida em comunidade e não mede esforços para construir isso. Sempre falo para os praticantes do Mosteiro Urbano Therigatha que nossa prática é acolher, cuidar e incluir pessoas em todas as atividades que fazemos juntas. Fui uma adolescente extremamente violenta e até hoje preciso trabalhar para colocar essa energia em favor dessa construção e do caminho, esse é meu koan”.


Há 15 anos, a monja Waho iniciou uma pesquisa sobre a linhagem das mulheres dentro do budismo, e, nesse caminho, outras mulheres se juntaram. “Durante a pandemia nosso grupo tinha 22 pessoas, que, durante quatro anos, participaram da tradução desse livro. Graças a elas, a mim e outras mulheres, podemos estar aqui. Honrá-las contando suas histórias é o nosso compromisso ao traduzir essa obra”, sustenta.


O livro traz relatos de monjas de vários países, como Índia, China, Coreia, Japão e até Estados Unidos. Pergunto se alguma monja brasileira está presente no livro. “Oficialmente, ou nominalmente, não, mas todas nós estamos representadas pela velha mulher que permeia todas as histórias do livro”, diz a monja.


O título A Lamparina Escondida, explica ela, “faz referência a essa experiência do despertar ou iluminação”. “Inúmeras mulheres tiveram grandes realizações ou despertares, mas essas experiências ficaram escondidas nas histórias contadas pelos homens ao longo dos séculos. Nosso compromisso agora é não deixar que isso continue assim”.


O que essas mulheres de 25 séculos têm em comum? “Elas conquistaram a liberdade da escolha pela transcendência do sofrimento e na abertura para a vida. Muitas delas não tinham mais nada a perder e, nessa hora, se você estiver atenta, tchibum! Um mergulho profundo acontece, para depois voltar e seguir apontando o caminho e a luz para quem quiser ver. Eu tenho imensa gratidão por cada uma dessas mulheres”, comenta a monja.


TRANSITORIEDADE DA VIDA

Dessa intimidade com histórias tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão semelhantes, a monja confessa que inúmeros capítulos mexem com ela, sempre que os lê. “No entanto, o capítulo 34, ‘O espelho zen de Tokeiji’, que traz reflexão da monja Zenju Earthlyn Manuel, trata da transitoriedade da vida e do envelhecimento percebido no corpo. Com meus quase 63 anos, me identifiquei com ele pelo fato de perceber como é difícil se preparar para esse momento. Ouvi-la é bom demais”, salienta a monja.

Para ela, o maior mérito do livro é “disponibilizar esse precioso material em língua portuguesa e poder falar em voz alta os nomes dessas mulheres e suas realizações”.


“Nós nos reconhecemos em cada despertar, nós estávamos lá, desde o princípio, nós estávamos lá” (frase do poema de Mahaprajapati que está no texto Therigatha), cita.

E finaliza: “Estudando sobre as mulheres no budismo, percebi claramente que teremos que nos manter vigilantes em preservar e manter vivas essas histórias. Saber que mestres da nossa linhagem, de séculos atrás, tiveram discípulas mulheres e reconheceram profundamente suas realizações. No entanto, mestres que vieram depois as colocaram em um lugar de apagamento ou exclusão. Isso me dá força e determinação em viajar com o livro, levando-o a outras mulheres. Pretendo publicar novos livros”.


Comentários


bottom of page