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A Filosofia de Deleuze e Guattari na Conjuntura Política Brasileira

11 de mai.
6 min de leitura

Atualizado: 1 de out.

Doralina Rodrigues Carvalho, *exclusivo para o blog da Terra Redonda.*


Ilustração criada por Sergio Papi, autor e designer parceiro da Terra Redonda
Ilustração criada por Sergio Papi, autor e designer parceiro da Terra Redonda

Fluxos e Desejos: A Visão de Deleuze e Guattari


Fluxos para Deleuze e Guattari não são apenas um conceito. O desejo é a fluência de fluxos, em que nada falta. Viver como fluxo exclui a falta. Contudo, a sociedade é organizada para distribuir a falta para uns e o excesso para outros. Nesse sentido, Deleuze e Guattari não afirmam que a falta não existe, mas que a falta não é o desejo. Ir pelos fluxos é encontrar outra maneira de viver. Por exemplo, fluxos de democracia que rompam com o necrofascismo. Eles apontam não para uma falta, mas para uma passagem de fluxos que levem a outra saída social e política.


A Sociedade como Conjunto de Fluxos


A própria sociedade é um conjunto de fluxos. Temos fluxos desterritorializados que buscam se agrupar numa condição democrática, expressando-se através de outros vetores desejantes, como fluxos de cidadania. Até o capital, que se organiza contra o plano do desejo, também opera por fluxos. Um plano de resistência pode criar rupturas político-sociais. O cerceamento de tais rupturas impede o fluir do plano do desejo, bloqueando a criação de novas linhas políticas que rompam com a repetição do mesmo.


Deleuze e Guattari afirmam que existem duas políticas do desejo: uma política fascista, capitalista e burguesa, e outra que quebra todas essas dimensões de traição do desejo. Essas são manobras e manipulações do poder das vias necro-fascistas. O desejo trabalha incansavelmente pelo devir dos povos. As massas alemãs acabaram desejando o nazismo. Nesse caso, o desejo coletivo voltou-se contra os próprios interesses populares. O desejo se coloca de modo subserviente em relação à sua manipulação pelo poder, afastando-se das multiplicidades sociais desejantes e servindo aos interesses da ordem dominante. O que nos interessa é a presença das micro-máquinas moleculares do desejo nas grandes máquinas sociais molares.


A Travessia de Anos de Desgoverno


A travessia de longos anos de desgoverno parecia sem fim. Infindáveis, também, pareciam a dor, a morte, o abandono e o vazio em que se debatia a maioria do povo brasileiro durante a pandemia e o modo insensato com que foi tratada. Dias sem alentos se sucediam pesados e arrastados, como se uma condição democrática estivesse muito longínqua. Apesar do país cindido, cansado de tantos desmandos, diversas forças políticas se uniram para eleger Luís Inácio Lula da Silva, rompendo com a patologização necrofascista que horrorizava a nação. A fervorosa busca de eliminar a captura ideológica bolsonarista era o afeto que atravessava parte dos corpos cidadãos brasileiros. Outra parte queria simplesmente conservar a roupagem necrofascista, opondo-se à condição de pensar e criar novas possibilidades cidadãs.


Conservar os privilégios, os órgãos de poder, as regalias e a corrupção na familícia, extensiva aos seguidores do líder-vedete da pior qualidade, eram os objetivos de grande parcela da população. Entretanto, outras alternativas começaram a se desenvolver, e práticas geradoras de existências alteritárias surgiram em territórios coletivos. Muitos mecanismos manipuladores necro-fascistas começaram a se desmoronar.


O Desejo como Corrente Cidadã


O desejo no campo social e político vai se constituindo via uma corrente cidadã, que articula máquinas desejantes e máquinas sociais. O desejo se faz enquanto investimento social, econômico e político. O desejo em relação ao fora, em investimentos históricos no campo social, são as coordenadas da existência engajadas em processos de singularização, sem amarras estruturais ou universais abstratos, rompendo com a ordem estabelecida.


Busca-se mutações de ordens existentes com a erupção de potências democráticas rizomáticas. O rizoma é democrático, não coercitivo ou codificador. Serão constituídas cartografias rizomáticas abertas a receber constantes modificações, rupturas e novos processos que objetivem novos sentidos de se estar no mundo, buscando agenciar a sociedade de outro modo.


A Inclusão e a Desumanidade


Os brasileiros não estão agora marginalizados pela frieza e indiferença social. Estão acolhidos e confortados de suas mazelas por uma política social que os lança na categoria de humanidade. A desumanidade, por outro lado, é apregoada por quem opina ou vota contra tais projetos sociais. Cria-se uma situação de povo contra povo. O necrofascismo se infiltra em todos os lugares. Até os trabalhadores podem ter uma participação inconsciente nos sistemas de dominação do capitalismo monopolista. Parte dos trabalhadores repete modelos sociais dominantes, seus sistemas de valor, as atitudes e gestos das classes dominantes.


O Consumismo e a Ideologia


O lugar que se ocupa na sociedade, na ótica capitalística, passa pela produção de um consumismo exacerbado e de uma interferência midiática nefasta. O endeusamento, em nosso país, de um suposto mito bolsonarista, que engendra um esquema de pensamento e ações ideologizadas, tem por base uma falsa moral. Cria-se sintomas de inferiorização, inibição e angústias que se incrustam na vida dos explorados. Daí a necessidade de que o desejo passe a fazer parte de uma luta social, contra as distorções da verdade, contra a manipulação de ideias e a busca de confundir consciências. O imaginário popular acaba por ser afetado por esse jogo perverso. Este é um outro mundo que se quer conquistar, longe da paz, com o apoio a guerras que levam à morte de civis, mulheres e crianças, como se fosse normal. A crença popular criada é a de que os interesses econômicos e a guerra são especialidades dos mais fortes, supostos salvadores da humanidade, quando, na verdade, apenas afundam em violência e injustiças.


O Capitalismo e o Desejo


Como já mencionado, o capitalismo também se insinua na produção desejante dos explorados, via um necrofascismo que se instala nos movimentos do desejo, criando assim, nas massas populares, uma cumplicidade inconsciente com os poderes vigentes. O capitalismo não apenas controla a produção, mas também sobredetermina a superestrutura política, instalando-se no desenvolvimento das forças desejantes. Assim, a economia do desejo vai sendo determinada pela subjetividade capitalística. Esta situação faz com que parte da população se torne cúmplice do núcleo de direita bolsonarista, tornando-se avessa ao desejo que a libertaria desse jugo, tornando-se massa de manobra dos ditames bolsonaristas, por exemplo, via fake news, manipulações e mentiras deslavadas. Falta uma consistência molecular democrática em diversos campos sociais.


Rupturas e a Política do Desejo


As rupturas com este sistema despótico muitas vezes não são possíveis, dado o grau de envenenamento ideológico a que se submeteram diversas camadas populares. A busca é traçar uma política do desejo em estreita unidade com uma política democrática, fugindo à reprodução de uma subjetividade capitalística, que desempenha um papel manipulador e doutrinador para minar os investimentos do desejo dos cidadãos.


Oferece-se uma droga subjetiva que torna uma parcela da população adicta a quem esfacela seus próprios interesses e lhe oferece uma zona cinzenta baseada na negação e no confronto com quem poderia oferecer-lhe saídas mais democráticas. Tornam-se vítimas daqueles que os impedem de desejar de modo autônomo e libertário. Buscam arrefecer angústias produzidas pelo mundo atual, curvando-se aos ataques ao desejo libertário em sua positividade, e submetem-se à sua doma, visando cristalizá-lo no campo ideológico necrofascista. A questão central é conectar o desejo a multiplicidades democráticas no campo social.


Criando Novos Valores


Mas não se trata apenas de criticar os valores bolsonaristas; trata-se de criar outros valores a partir de uma política renovada. Não se trata de desejar dominar. A vontade de dominar não poderia ser chamada de desejo. A vontade de potência não deseja dominar. A vontade de potência consiste em criar e dar. Ela ultrapassa o niilismo, numa afirmação da terra e do corpo. A afirmação é um alívio ao se retirar a carga com que se vive. O sim de Zaratustra é a afirmação do dançarino em nós.


Renovação e Ação Coletiva


Estamos tentando criar novas maneiras de pensar e agir. Para tanto, temos de pensar numa renovação permanente da sociedade, rompendo com as forças negativas que a levam à decadência. Não podemos nos acomodar, conformando-nos com as imposturas negativas. Temos que exigir respostas outras a tais males que afligem a sociedade. Assim, iremos atualizando um devir virtual por diferenciação. As múltiplas instituições democráticas em nosso país exemplificam a possibilidade de um modelo positivo de ações.


O Futuro das Eleições


As eleições que se aproximam requerem não apenas a escolha do presidente da república que mais favoreça a democracia, mas também a renovação da câmara e do senado, enquanto instituições cujos componentes podem atender às aspirações populares e aos direitos dos cidadãos. Seriam representantes do povo que se baseiam num desejo de transformação, inseridos no campo social. Boa parte dos deputados e senadores não percebe sua própria alienação e se coloca a serviço dos esquemas capitalistas. Temos de eleger parlamentares que criem buracos no muro capitalista, não que reforcem esse muro. A interiorização do esquema bolsonarista leva a escolhas aberratórias do ponto de vista político, econômico e social. E não há ponderações ético-políticas que os atinjam. A batalha para vencer esse campo será árdua, porém possível. Vamos lá!


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Doralina Rodrigues Carvalho é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, professora do Centro de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae - SP, coordenadora do Instituto Candeias, terapeuta e supervisora clínica, e autora do livro Vestígios do mundo e da vida contemporânea, recém-lançado pela Terra Redonda Editora. Na juventude, foi presidente da UEE-MG e dirigente da Ação Popular Marxista Leninista.

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