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Fluxos de desejos e de sonhos

  • há 20 horas
  • 6 min de leitura

Texto articula a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari com a conjuntura política brasileira recente, especialmente o bolsonarismo e a ideia de “necrofascismo”.


Doralina Rodrigues Carvalho, exclusivo para o blog da Terra Redonda.


Ilustração criada por Sergio Papi, autor e designer parceiro da Terra Redonda
Ilustração criada por Sergio Papi, autor e designer parceiro da Terra Redonda

Fluxos para Deleuze e Guattari não são um conceito. O desejo é a fluência de fluxos, em que nada falta. Viver como fluxo exclui a falta. Mas a sociedade é organizada para distribuir a falta para uns e o excesso para outros. Neste sentido, Deleuze e Guattari não estão dizendo que não existe a falta, tão somente que a falta não é o desejo. Ir pelos fluxos é encontrar outra maneira de viver. Por exemplo, fluxos de democracia que rompam com o necrofascismo. Apontam não para uma falta e sim para uma passagem de fluxos, que levem a outra saída social e política.


A própria sociedade é um conjunto de fluxos. Temos fluxos desterritorializados que querem se agrupar numa condição democrática que se expressa através de outros vetores desejantes, por exemplo, através de fluxos de cidadania. Até o capital, que se organiza contra o plano do desejo, também opera por fluxos. Um plano de resistência pode criar rupturas político-sociais. O cerceamento de tais rupturas impede o fluir do plano do desejo, impede a criação de novas linhas políticas que rompam com a repetição do mesmo.


Deleuze e Guattari dizem que há duas políticas do desejo: uma política fascista, capitalista, burguesa e uma outra que faz quebrar todas essas dimensões de traição do desejo. Essas são manobras e manipulações do poder das vias necro-fascistas. O desejo trabalha de modo incansável o devir dos povos.  As massas alemãs acabaram por desejar o nazismo. Nesse caso o desejo coletivo voltou-se contra os próprios interesses populares. O desejo se colocando de modo subserviente em relação à sua manipulação pelo poder, afastando-se das multiplicidades sociais desejantes e servindo aos interesses da ordem dominante. O que nos interessa é a presença das micro-máquinas moleculares do desejo nas grandes máquinas sociais molares.


A travessia de longos anos de desgoverno parecia sem fim. Infindáveis, também, pareciam a dor, a morte, o abandono, o vazio em que se debatia a maioria do povo brasileiro com a pandemia e o modo insensato com que foi tratada. Dias sem alentos se sucediam pesados e arrastados, como se uma condição democrática estivesse muito longínqua. Mas apesar do país cindido, cansado também de tantos desmandos, diversas forças políticas se uniram para eleger Luís Inácio Lula da Silva rompendo com a patologização necrofascista que horrorizava a nação. A fervorosa busca de eliminar a captura ideológica bolsonarista, era o afecto que atravessava parte dos corpos cidadãos brasileiros. Outra parte queria simplesmente conservar a roupagem necrofascista, opondo-se à condição de pensar e criar novas possibilidades cidadãs.

Conservar os privilégios, os órgãos de poder, as regalias e a corrupção na familícia, extensiva aos seguidores do líder-vedete da pior qualidade, eram os objetivos de grande parcela da população. Só que então se desenvolveram outras alternativas, outras práticas geradoras de existências alteritárias foram surgindo em territórios coletivos. Muitos mecanismos manipulatórios necro-fascistas começaram a se desmoronar.


O desejo no campo social e político vai se constituindo via uma corrente cidadã, que articula maquinas desejantes e maquinas sociais. O desejo se fazendo enquanto investimento social, econômico e político. O Desejo em relação com o fora em investimentos históricos no campo social são as coordenadas da existência engajadas em processos de singularização, sem amarras estruturais ou universais abstratos, rompendo com a ordem estabelecida.


Busca-se mutações de ordens existentes com a erupção de potências democráticas rizomáticas. O rizoma é democrático, não coercitivo ou codificador. Serão constituídas cartografias rizomáticas abertas a receberem constantes modificações, rupturas, novos processos que objetivem novos sentidos de se estar no mundo, buscando agenciar de outro modo a sociedade.


Os brasileiros não estão agora marginalizados pela frieza e indiferença social. Estão acolhidos e confortados de suas mazelas por uma política social que os lança na categoria de humanidade. A desumanidade, por outro lado, é apregoada por quem opina ou vota contra   tais projetos sociais. Cria-se uma situação de povo contra povo. O necrofascismo se infiltra em todos os lugares. Até os trabalhadores podem ter uma participação inconsciente nos sistemas de dominação do capitalismo monopolista. Parte dos trabalhadores repetem modelos sociais dominantes, seus sistemas de valor, as atitudes e gestos das classes dominantes.


O lugar que se ocupa na sociedade na ótica capitalística passa pela produção de um consumismo exacerbado e de uma interferência midiática nefasta. O endeusamento, em nosso país, de um suposto mito bolsonarista, que engendra um esquema de pensamento e ações ideologizadas, tem por base uma falsa moral. Cria-se sintomas de inferiorização, inibição e angústias que se incrustram na vida dos explorados. Daí a necessidade de que o desejo passe a fazer parte de uma luta social, contra as distorções da verdade, contra a manipulação de ideias e a busca de confundir consciências. O imaginário popular acaba por ser afetado por esse jogo perverso. Esse é um outro mundo que se quer conquistar longe da paz, com o apoio a guerras que levam à morte de civis, mulheres e crianças inclusive, como se fosse normal. A crença popular que é criada é a de que os interesses econômicos e a guerra são especialidades dos mais fortes, supostos salvadores da humanidade, quando na verdade, só a   afundam em violência e injustiças.


Como já dito, o capitalismo também se insinua na produção desejante dos explorados, via um  necrofascismo que se instala nos movimentos do desejo, criando assim nas massas populares uma cumplicidade inconsciente com os poderes vigentes. O capitalismo não apenas controla a produção, sobredetermina a super estrutura politica, como também se instala no desenvolvimento das forças desejantes. Assim, a economia do desejo vai também sendo determinada pela subjetividade capitalística. Esta situação faz com que parte da população se torne cúmplice do núcleo de direita bolsonarista, tornando-se avessa ao desejo que a libertaria desse jugo, tornando-se massa de manobra dos ditames bolsonaristas, por exemplo via fake news, manipulações e mentiras deslavadas. Falta uma consistência molecular democrática, em diversos campos sociais.


As rupturas com este sistema despótico, muitas vezes não são possíveis dado o grau de envenenamento ideológico a que se submeteu diversas camadas populares. A busca é traçar uma política do desejo em estreita unidade com uma política democrática, fugindo à reprodução de uma subjetividade capitalística, que desempenha um papel manipulador e doutrinador para minar os investimentos do desejo dos cidadãos.


Oferece-se uma droga subjetiva que torna uma parcela da população adicta a quem esfacela seus próprios interesses e lhe oferece uma zona cinzenta baseada na negação e no confronto com quem poderia oferecer-lhe saídas mais democráticas. Tornam-se vítimas daqueles que os impedem de desejar de modo autônomo e libertário. Buscam arrefecer angústias produzidas pelo mundo atual curvando-se aos ataques ao desejo libertário em sua positividade e submetem-se à sua doma, visando cristalizá-lo no campo ideológico necrofascista. A questão central é conectar o desejo a multiplicidades democráticas no campo social.


Mas não se trata apenas de criticar os valores bolsonaristas, trata-se de criar outros valores a partir de uma política renovada. Não se trata de desejar dominar. A vontade de dominar não poderia ser chamada de desejo. A vontade de potência não deseja dominar. A vontade de potência consiste em criar e dar. Ela ultrapassa o niilismo, numa afirmação da terra e do corpo. Afirmação como alívio ao se retirar a carga com que se vive. O sim de Zaratustra é a afirmação do dançarino em nós.


Estamos tentando criar novas maneiras de pensar e de agir. Para tanto temos de pensar numa renovação permanente da sociedade, rompendo com as forças negativas que a levam à sua decadência. Não podemos nos acomodar nos conformando com as imposturas negativas. Temos que ter uma exigência de respostas outras a tais males que afligem a sociedade. Assim iremos atualizando um devir virtual por diferenciação. As múltiplas instituições democráticas em nosso país exemplificam a possibilidade de um modelo positivo de ações.


As eleições que se aproximam requerem não apenas uma eleição do presidente da república que mais favoreça a democracia, como a renovação da câmara e do senado, enquanto instituições cujos componentes podem atender às aspirações populares, os direitos dos cidadãos. Seriam representantes do povo que se baseiem num desejo de transformação, inseridos no campo social. Boa parte dos deputados e senadores não percebem a sua própria alienação e se colocam a serviço dos esquemas capitalistas. Temos de eleger parlamentares que criem buracos no muro capitalista, não que reforcem esse muro. A interiorização do esquema bolsonarista, leva a escolhas aberratórias do ponto de vista político, econômico e social. E não há ponderações ético-políticas que os atinjam. A batalha para vencer esse campo  será árdua, porém possível. Vamos lá!

 

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Doralina Rodrigues Carvalho é mestre em Psicologia Clínica pela (PUC-SP), professora do Centro de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae - SP, coordenadora do Instituto Candeias, terapeuta e supervisora clínica, e autora do livro Vestígios do mundo e da vida contemporânea, recém lançado pela Terra Redonda Editora. Na juventude, foi prtesidente da UEE-MG e dirigente da Ação Popular Marxista Leninista.

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