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Estamos de luto



Estamos de Luto


Hoje, os manos do Facção Central falam pela Terra Redonda, com as palavras de 22 anos atrás! Elas não morrem. Já os manos, eles continuam matando, um depois do outro. Mas isso vai parar! Estamos de luto e de luta.



Estamos de luto, aos manos que se foram Aê aos que ficaram, meu pêsames, aguardem sua vez Não tem apelo pro inferno, nem oração lá pra cima Todo mundo já era, é uma contagem regressiva Cada mano numa alça, vela acesa, mesma cena Um caixão que mal identifico Será que valeu a pena o sangue no peito O B.O. no carro forte, o plaquê de dólar Um caixão velado por ninguém? A lágrima da coroa, que de canto chora Ontem um muleque que sonhava com vídeo game, no Natal Hoje um cadáver em pedaços desfigurado irreconhecível, embaixo do jornal Sem marcha fúnebre cortejo só o toque da sirene Apenas mais um defunto mais uma cruz no cemitério,

outra medalha pra civil, outra medalha pra PM

(roubo a banco, Denarc, Rota, tático cinza) E nesse embalo, quantos manos meus, eu já contei? Com certeza, o velório de quase todos eu presenciei Sempre no mesmo estilo, caixão caindo ao pedaços Botaram quase a bunda no crack E como lixo foram enterrados Cadê a auto-estima, aqui ninguém se liga Que ser esperto não é ser ladrão É não morrer no oitão, na doze da polícia? Ainda me lembro do Glicério, Cambuci da antiga Pivetada no caminho, estudando, seria um alguém na vida Não progrediram honestamente,

mas no crime a história se inverte,

de 155, 16, hoje a banca toda é 121, 12, 157, assalto a banco, homicídio, tráfico, coisas desse tipo Só que existe um detalhe: a cada fita ninguém volta rico, muito menos vivo Se alguém tomasse como exemplo, cadáver ensanguentado Não haveria tanto embalo rezando pra ser finado Não haveria o IML lotado com os nossos manos Não haveria nossa juventude imbecilmente se acabando Não quero ver mais mano meu sendo apenas defunto E aos manos que se foram, nós estamos de luto


Seu enterro não vai ter ninguém de luto É só mais um outro caixão, só mais um defunto No cadáver, como um lixo no necrotério Sem flores, nem lágrimas no cemitério, estamos de luto


Estamos apresentando a imbecilidade A lei do mais forte, aqui é só malandragem Não tem espaço pra otário, aqui quem se dá bem É quem atira primeiro, argumentos pouco interessam O negócio é dinheiro, é cocaína, é malandragem, pilantra na mira Esquemas de assaltos, aliados falsos, várias vadias O vínculo com a morte, a porta do inferno Ninguém pega boi, não tem otário, nem esperto Quem está com o revolver tem a razão A lei foi feita assim, aqui por nós, a lei de ladrão Não tem negócio de irmão, que branco e preto que nada Deveu dinheiro, deu bonde em farinha, se liga na rajada


- E aê pilantra, e o dinheiro? - Que dinheiro, mano? - Dinheiro da droga, o cuzão, - Te devo nada mano - Me deve nada ô filho da puta, então vai (barulhos de tiros)


Assim se movimenta a parte pobre, o submundo Honestidade sem chance, aqui ninguém tem futuro Um corredor da morte Onde a cadeira elétrica são os próprios manos na crocodilagem Não tem pessoa certa, não existe aliado Nem mano de parada, se a casa cai num DP Foi ele aí, eu não sei de nada Quantas vezes vi os próprios manos se caguetando Tornando-se inimigos, na sequência se matando Aquele aliado que roubava do meu lado Deu brecha, me caguetou, vai virar finado A regra é assim, simples e eficaz Se pilantrou, já deu motivo, então descanse em paz Não compre sua passagem para o inferno Seja mais que malandro, 10 vezes mais que esperto Não seja apenas só mais um defunto É que pra morte da gente dificilmente, mano, Alguém fica de luto


Seu enterro não vai ter ninguém de luto É só mais um outro caixão, só mais um defunto No cadáver como um lixo no necrotério Sem flores, nem lágrimas no cemitério Estamos de luto


Ouço tiros daqui, mais um mano se foi A casa caiu, caguetagem, não teve boi Mais um outro aliado na delegacia Se abriu igual uma piranha, e aí só alegria É a tal lei de ladrão, capítulo proteção Se eu tô bem, tô vivo, descanse em paz o mano no caixão É o lado irônico do crime, sem a menor graça Seu aliado de quadrilha é o mesmo que te enterra É a mão que segura sua alça Sem aplausos, salva de tiros É só mais um episódio do suicidio coletivo É só mais um finado, mais um defunto Mais um enterro, ninguém de preto, ninguém de luto É triste, sim, mas na verdade o que mais me deixa atacado É saber que não importa o quanto haja finados Manos enterrados, nosso veneno é ignorado Aqui não tem enterro, não tem crack, polícia PT engatilhada, aqui não existe inferno, é tudo paz, só alegria Quebrada da playboyzada, que nada Eu tô falando da Muniz de Souza, do Glicério, do Ipiranga, Cambuci, se liga, é cemitério Não precisa de favela, barraco, pra ser quebrada de ladrão,

Periferia interior, centro vacilou, bum, é caixão São Paulo, de ponta a ponta, é um defunto esperando o seu enterro Em nome do Pai Zona Norte, em nome do Filho Zona Sul,

Do Espirito Santo Leste, Zona Oeste, amém, meus sentimentos Nossa quebrada segue a regra, o Lúcifer decide o nosso fim

Aqui é Rota, enterro, influência ruim Muniz de Souza de luto, PT e 38


Salve o mano Nei e o Nicolau, assassinado ali no posto Salve o mano DG (Meu velho mano DG) Bons tempos Maranjaí, a quebrada em peso até hoje, lamenta o seu fim Salve o mano Tony, morto numa parada Salve todos manos assassinados, de todas quebradas Facção Central, e aos que foram nós sentimos muito Mano Eduardo, Erick 12, Dum-Dum, nós estamos de luto


Seu enterro não vai ter ninguém de luto É só mais um outro caixão, só mais um defunto O cadáver, como um lixo, no necrotério Sem flores, nem lágrimas, no cemitério Estamos de luto

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