Por que a imprensa se recusa a reconhecer a importância de Dilma Rousseff?
- terraredondaltda
- 8 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 13 de nov. de 2025
Roberto Xavier, em seu perfil no Facebook, 10/11/2025.

Há uma ironia amarga na trajetória recente de Dilma Rousseff. No exato momento em que seu nome ganha força e respeito nos circuitos da geopolítica global, ela parece cada vez mais ausente da memória e da narrativa pública brasileira.
Enquanto preside o Banco dos BRICS e se torna uma das vozes mais ativas na defesa de uma transição ecológica justa, a ex-presidenta do Brasil continua sendo tratada pela grande imprensa nacional como uma figura lateral, quase um eco de um passado político incômodo.
A COP 30, em Belém, expôe essa contradição com clareza quase simbólica. Diante de chefes de Estado, cientistas e representantes de organismos internacionais, Dilma apresentou um dos discursos mais consistentes do encontro: prometeu que o Banco dos BRICS financiará projetos de transição justa, voltados não apenas ao meio ambiente, mas à vida das pessoas, às comunidades, aos trabalhadores, às populações afetadas pelas mudanças climáticas.
Falou de energia limpa, de soberania financeira e de justiça social como partes de um mesmo desafio civilizatório. E, mesmo assim, o que poderia ter sido manchete virou nota de rodapé.
O papel que Dilma desempenha hoje é tudo, menos marginal. À frente de uma instituição sediada em Xangai, com capital de dezenas de bilhões de dólares, ela vem impulsionando o financiamento de projetos de infraestrutura sustentável, energia renovável e reconstrução ambiental, temas que moldarão as próximas décadas.
Sob sua direção, o Banco já destinou parte expressiva de seus recursos a iniciativas voltadas à descarbonização e defende, de maneira inédita, que 30% dos financiamentos sejam feitos em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar e fortalecendo a soberania financeira dos países do Sul Global.
O discurso em Belém condensou esse projeto de longo alcance: conectar economia e ecologia, desenvolvimento e justiça, pessoas e planeta.
Apesar disso, a cobertura midiática brasileira segue tratando Dilma com a frieza de um rodapé. O protagonismo internacional da ex-presidenta raramente ganha destaque, e quando aparece é de modo episódico, como curiosidade diplomática ou pretexto para reavivar antigas controvérsias domésticas.
O que está em jogo, porém, é mais do que uma injustiça pessoal: é o sintoma de uma cegueira estrutural, a incapacidade do país, e especialmente de sua imprensa, de reconhecer-se como parte de uma ordem global em transformação.
A mídia brasileira continua cativa de uma lógica provinciana. Fala com paixão das disputas do Congresso, dos humores do mercado, das crises ministeriais, mas se mostra desinteressada quando o assunto é o lugar do Brasil no mundo.
Sob essa lente, Dilma é apenas uma ex-presidenta “alocada” em um banco em Xangai, e não a dirigente de uma instituição que financia a transição energética de dezenas de países e oferece alternativas concretas ao modelo financeiro ocidental.
Há, nesse silêncio, também um viés de gênero e de classe. Dilma é uma mulher que enfrentou, e sobreviveu, à mais intensa campanha de deslegitimação política da história recente do país. Foi derrubada sob o peso de uma narrativa corrosiva, construída por muitos dos mesmos meios que hoje a ignoram.
Reconhecer seu êxito internacional seria, para boa parte da imprensa, reconhecer o erro cometido e, mais ainda, admitir que a mulher acusada de “incompetência” tornou-se referência mundial em governança e finanças sustentáveis.
É possível, claro, que parte dessa negligência seja involuntária. Os temas tratados por Dilma: moedas locais, desenvolvimento verde, arquitetura financeira multipolar, não são de fácil tradução jornalística. Mas o jornalismo existe, precisamente, para tornar compreensível o que é complexo.
Quando não se explica, o que se perde é a possibilidade de formar opinião pública sobre questões decisivas: como o Brasil pode se integrar à nova economia verde? Que papel pode desempenhar na governança global do clima? E que significado tem o Sul Global reivindicar seu próprio banco e sua própria voz?
Ignorar Dilma é, portanto, mais do que uma omissão: é desperdiçar uma oportunidade de pensar o país em outra escala. Ela representa um Brasil que fala com privilegiadamente com a China, virtualmente a maior economia global e líder dessa transição que financia reconstruções ambientais, que busca autonomia financeira e que tem algo a ensinar sobre desenvolvimento soberano.
Essa é uma história que merecia estar nas capas dos jornais, sobretudo durante a COP 30, quando o mundo a ouviu falar de futuro e o Brasil, mais uma vez, escolheu o silêncio.
Enquanto o planeta a escuta, o Brasil finge não ver. É uma cena familiar: o talento e o protagonismo brasileiros só são plenamente reconhecidos quando atravessam as fronteiras e mesmo assim, continuam a ser tratados aqui com indiferença.
Dilma Rousseff, da presidência de um banco global, devolve ao país um tipo de grandeza que sua imprensa parece incapaz de narrar. E talvez seja justamente esse o incômodo: perceber que, apesar de tudo, ela voltou vencedora e muito maior que em 2016.

____________
Roberto Xavier é pesquisador em políticas públicas. Dedica-se a estudar as tensões entre Estado, democracia e desigualdade no Brasil contemporâneo
_______________________________________________________
FOLHA DE S.PAULO - 8/11/2025
Golpe de Dilma e o problema de Lula
Fernado Canzian, colunista da Folha.
O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff foi um golpe. Talvez o mais prejudicial à compreensão dos efeitos da política sobre a economia desde a redemocratização.
Naquela sessão deprimente em abril de 2016, o Congresso livrou Dilma de assumir, no exercício do cargo, as consequências de sua gestão irresponsável. Afastada a presidente, o PIB afundaria 7% e o desemprego atingiria 12%.
O PT até hoje culpa os governos posteriores, que aprovaram as reformas trabalhista e previdenciária, além de terem preparado o terreno para a tributária e destravado investimentos gigantescos em saneamento.
Prova de que o partido nunca admitiu o fiasco de Dilma é que Lula a indicou para a presidência do banco dos Brics, uma sinecura em Xangai com salário de aproximadamente R$ 260 mil mensais.
A história se repete.
Em seu terceiro ano de um novo mandato, a economia sob Lula deve crescer 2,3% e o desemprego marca 5,6%. Sob Dilma, neste mesmo ponto, o PIB crescia 3% e o desemprego estava em 5,4%. Mas há uma diferença fundamental —para pior.
O principal indicador da saúde financeira de um país é a comparação entre seu endividamento e o tamanho da economia, a chamada relação dívida/PIB. Quanto mais alta, maior a propensão para uma crise de confiança, que leva investidores ao dólar e a uma explosão inflacionária —como vimos acontecer rapidamente com Dilma.
Em cinco anos e meio sob a ex-presidente, a relação dívida/PIB aumentou 14 pontos, atingindo 66,6%. Em quatro anos sob Lula 3, o aumento previsto é de 9 pontos, encerrando 2026 em 82,4% (IFI/Senado). É como se a casa arrumada em uma foto escondesse hoje bem mais sujeira embaixo do tapete.
Falta dinheiro para passaportes e livros didáticos, mas Lula endividará mais o país para se reeleger em um ambiente atual de condescendência dos mercados. Isso não deve durar.
Se ganhar, finalmente veremos o PT assumir o problema, o que será inédito e didático. Se perder, será culpa dos outros.
_______________________________________________________
Comentário do editor da Terra Redonda Editora
Depois do excelente texto de Roberto Xavier (ao qual talvez só tenha faltado deixar mais explícito que o machismo estrutural é a fonte profunda da perseguição e das tentativas de silenciamento da ex-presidenta Dilma Rousseff), soa interessante o artigo do colunista da Folha de S.Paulo, Fernando Canzian, publicado na mesma data.
O Grupo Folha (e Canzian, obviamente) apoiou ativamente o golpe que tirou Dilma da Presidência da República. O principal indicador disso, além da cobertura parcial e tendenciosa do jornal (e do UOL), foi a participação de seu então Diretor de Redação, Otavio Frias Filho, nas conspirações midiáticas praticadas no Instituto Millenium, que - não por acaso - tinha como uma espécie de secretário executivo o senhor Jorge Gerdau Johannpeter, um infiltrado no governo Dilma que impôs-lhe as desonerações, usadas depois pelo deputado Eduardo Cunha para torná-las pautas-bombas, destinadas exatamente a explodir o equilíbrio fiscal da União, processo cuja responsabilidade o Canzian tenta imputar exclusivamente à suposta burrice e incompetência que a mídia golpista insistiu em tentar carimbar em Dilma.
A novidade, agora, é que Canzian passa a reconhecer, hipocritamente, que ela sofreu um golpe. Mas o machista faz isso apenas para ter um pretexto de mais uma ver exibir seu preconceito contra a ex-presidenta.

Em meu livro "13 anos de Lula e Dilma" (Terra Redonda, 2023), mostro, com dados oficiais: 1) a responsabilidade principal dos golpistas pelos desarranjos fiscais do governo Dilma a partir de 2013, e 2) a farsa da repetição exaustiva da mídia golpista na caracterização desses desarranjos como desastre. Senão vejamos: usando o critério chamado por Canzian de "principal indicador da saúde financeira de um país", a relação dívida/PIB no período 2003 a 2025, fica claríssimo que o desastre ocorreu de fato no período 2015-2020, no governo golpista de Michel Temer (com o José Serra, queridinho da Folha, de Ministro das Relações Exteriores) e no governo Bolsonaro.

Só o machismo arraigado pode explicar o surto de Canzian ao voltar 10 anos atrás e desdizer-se, reconhecendo o golpe, só para reafirmar seu ataque mentiroso sobre a condução econômica do país realizada pela ex-presidenta Dilma Rousseff, ainda que esteja apenas fazendo coro ao cânone misógino da mídia golpista.
Canzian devia ter vergonha de fazer isso. Principalmente sabendo que, em 2025, seu atual contratante, Luis Frias, aspirante a Elon Musk brasileiro, liderou a campanha pela prorrogação da desoneração fiscal de 17 setores da economia, impondo ao governo central uma renúncia fiscal de mais de R$ 20 bilhões anuais, por mais sete anos. Em 10 anos de vigência das desonerações, a partir de 2013, os setores favorecidos eliminaram mais de 1 milhão de postos de trabalho, quando deveriam ter preservado os empregos. Claro que entre os setores beneficiados, pelo menos três favorecem diretamente as empresas do Grupo Folha: Comunicação, Tecnologia da Informação (TI), Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). A Folha e o UOL, "sempre austeros e liberais", apoiaram descaradamente a criação desse rombo fiscal, atrás do qual o governo Lula 3 está correndo até hoje.
Se tivesse compromisso com os fatos, Fernando Canzian devia ter vergonha de repetir mentiras antigas sobre o suposto desastre fiscal de Dilma. Infelizmente, não tem.
Sergio Alli, editor da Terra Redonda Editora





Comentários