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Carta aberta a Ana Cabral, CEO da mineradora Sigma Lithium

Em defesa do povo do Vale do Jequitinhonha

Doralina Rodrigues Carvalho


Silhueta do perfil da semhora Ana Cabral, com as latas d'água na cabeça. Arte: Sergio Alli
Ilustração: Sergio Alli


Sou do Vale do Jequitinhonha. Nasci em Pedra Azul. Com muito orgulho, muito amor e agradecimento!


E você, Ana Cabral? Conhece a história de lutas dos habitantes do Vale do Jequitinhonha? Conhece a opressão e sofrimento seculares desse povo? Sabe quantos filhos do Vale, em luta incansável pela democracia e os direitos do povo, foram perseguidos, presos e torturados pela ditadura militar? Já admirou os artistas, músicos, cantores, contadores de estória e escritores surgidos no Vale? Ah! Vou me referir, apenas, a alguns: Gonzaga Medeiros, Tadeu Martins, Rubinho do Vale, Gustavo Guimarães, Heitor de Pedra Azul, Pereira da Viola, Saulo Laranjeiras, Lira Marques, Wilson Dias, Coral Araras Grandes, Coral Trovadores do Vale, Bilora, Dito Rodrigues, Rubens Spindola, Lucinho Cruz, Paulinho Pedra Azul, Tadeu Franco.  


É talento e garra demais para você querer nos qualificar de “geração perdida”, como fez em sua declaração na COP30. Suas palavras foram um aglomerado de preconceitos e desprezo por gente que você não conhece. Disse você:


"Nós treinamos aquela geração perdida do Vale, que eram 'mulas de água'. Elas passavam o dia, não tinha aula, carregando água da cisterna pública para casa, da casa para a cisterna pública [...] e essas crianças não foram educadas, foram trabalhar num bananal. Nós pegamos a mão de obra do bananal e treinamos para serem operadoras de planta. Então, 43 operadores da planta, dos 200 que nós temos, são ex-mulas de água. Olha que lindo!"


Não, não somos mulas d´água. Foi bem mais que um discurso elitista inadequado. Foi uma fala ofensiva, agressiva e desrespeitosa! Você estabeleceu uma categoria social - geração perdida – para tentar criar uma hierarquia social simbólica, como se o seu modo de viver e suas experiências fossem superiores às do povo do Jequitinhonha. Me pareceu uma posição mofada. Mas explica bem o comportamento da Sigma Lithium, a empresa que você comanda, em nosso território.


Minha revolta frente a suas palavras ofensivas não é solitária. O deputado estadual Jean Freire pronunciou-se: “Assisti com grande indignação à fala da CEO da Sigma Lithium, durante a COP30, chamando nosso povo de “mulas d’água” e tentando vender ao mundo uma imagem racista e desrespeitosa do Vale do Jequitinhonha. Isso não é deslize: é preconceito! Enquanto retira milhões de litros de água do nosso rio, a empresa inflou números e tentou posar de “salvadora” na mídia internacional. O Vale tem dignidade, história e força! Encaminhei hoje à Assembleia Legislativa, requerimento de repúdio a esta fala da Ana Cabral. Não aceitaremos!”


Agora, Ana Cabral, vou lhe contar uma historinha ocorrida no Vale:


Um criador rural ao juntar uns animais para vendê-los, colocou - dentre eles - uma mula chamada Turmalina. Quando o comprador foi separar os animais que lhe interessavam, escolheu, também, essa mula. Ao tangê-los para fora do curral, Turmalina começou a zurrar desesperadamente. Todos ficaram espantados. O criador rural desceu da cerca onde estava, foi até à tropa de animais, tirou Turmalina de lado e disse: “Esta eu não vendo”.


Turmalina que, em jornadas difíceis, tanto serviço já havia prestado a seu dono viveu até o fim de seus dias apenas percorrendo mansamente os pastos da fazenda. Seu merecido descanso estava assegurado. O criador rural, pareceu-me ser um homem sensível e justo, até para com os animais. Muito diferente de você, Ana Cabral, que usa o nome de um animal como xingamento de um povo. 


Vê-se logo, também, que você passa bem distante da cultura popular brasileira, não? Nas favelas do Rio, se vivia (ou até se vive ainda) esse problema de não ter água encanada. Os compositores Luís Antônio e Jota Júnior fizeram uma música em 1952 - Lata d'Agua - inspirada em Maria Mercedes Chaves, ex passista da Portela, que dançava com uma lata d´água na cabeça. A música, inicialmente cantada por Marlene, eternizou-se e chegou a ser cantada por Elza Soares.


Eis aqui a sua letra:


Lata d'água na cabeça

Lá vai Maria, lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria

Lata d'água na cabeça

Lá vai Maria, lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria

Maria lava roupa lá no alto

Lutando pelo pão de cada dia

Sonhando com a vida do asfalto

Que acaba onde o morro principia

 

Senhora Ana Cabral, o povo brasileiro é batalhador e trabalhador. Onde quer que haja condições mais precárias de saneamento, de sobrevivência mesmo, lá vão as Marias cantando e dançando com a lata d´água na cabeça. Isto não é ser mula d´água, isto é ter dignidade e capacidade de lutar por sua própria existência.


Cultivar uma narrativa de discriminação é discurso de ódio e alimenta a cultura da violência, que também se evidencia nas ações da Sigma Lithium. Por um lado, flagrantes desrespeitos aos direitos humanos e sociais da população. Por outro, cânticos de louvor às conquistas predatórias do capital hiperconcentrado.


Em 2024, escrevi um artigo (pelo qual fui ameaçada pela empresa) em que mostrei como a atuação da Sigma Lithium no Vale do Jequitinhonha apresenta falhas graves de governança socioambiental, incluindo a ausência de consulta prévia e participação efetiva das comunidades tradicionais no licenciamento de seus projetos, como exige a Convenção 169 da OIT. A expansão acelerada das pilhas de rejeito, o excesso de poeira com risco comprovado para doenças respiratórias, a pressão sobre recursos hídricos e os conflitos fundiários reforçam a percepção de que a empresa opera com padrões inferiores aos adotados internacionalmente pela mineração responsável.

Soma-se a isso um descompasso entre o discurso corporativo de ESG — baseado em “lítio verde” e neutralidade de carbono — e os impactos territoriais relatados localmente, incluindo poluição, adoecimento e racismo ambiental.

Sua fala de desprezo pelo povo do território é perfeitamente coerente com essa atuação Sigma Lithium. Percebe-se que a senhora está no comando. Numa ação diante da qual quem defende a democracia e os direitos do povo brasileiro não pode assistir inerte.


Sabemos que o Vale tornou-se um epicentro da disputa geopolítica global pelo lítio, impulsionando decisões de investimento e aceleração produtiva que ignoram a capacidade de absorção socioambiental da região. A concessão de R$ 500 milhões do Fundo Clima à sua Sigma Lithium, sem contrapartidas robustas, evidencia a fragilidade institucional e favorece um modelo de exploração que pode deixar um enorme passivo ambiental e social.


Por tudo isso, Ana Cabral, esta carta não é apenas uma resposta à sua fala, mas um alerta: o Vale do Jequitinhonha não aceitará ser reduzido a estereótipos nem sacrificado em nome de uma transição energética que reproduz velhas formas de colonialidade. Somos um povo de memória, criação, resistência e futuro — e não permitiremos que a ganância empresarial, travestida de sustentabilidade, defina o destino de nossas comunidades. A história do Vale é maior que a Sigma Lithium. É maior que qualquer CEO. É história de dignidade, não de submissão. E é em nome dessa dignidade que seguiremos denunciando, organizando e exigindo que o Estado brasileiro cumpra seu dever: proteger vidas, territórios e direitos, antes que o lítio leve tudo — menos a nossa coragem de lutar.


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Doralina Rodrigues Carvalho é mestre em Psicologia Clínica pela (PUC-SP), professora do Centro de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae - SP, coordenadora do Instituto Candeias, terapeuta e supervisora clínica, e autora do livro Vestígios do mundo e da vida contemporânea, recém lançado pela Terra Redonda Editora.



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