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Eles não sabem de carnaval, eles sabem de balada

  • 21 de mar.
  • 5 min de leitura

Lira Alli, em vídeo da Pó de Vidro Filmes, 13/03/2026.


Novamente voltamos à investigação duma das questões mais importantes da humanidade: os fins do Carnaval no Brasil. Aqui chamamos Lira Alli e a Lira Alli do bloco Vai Quem Qué pra explicar a crescente ambevização dos festejos que está em curso na cidade de São Paulo, cortesia dos conchavos do burgomestre Ricardo Nunes. Apesar de falarmos localmente, atualmente rolos-compressores semelhantes esmagam a folia em todo o país. (Pó de Vidro Filmes)



Às vezes faço essa brincadeira: eu falo que o Carnaval de São Paulo é tipo uma ejaculação precoce, assim, o cara fica dizendo que é grande, é grande, mas acaba muito cedo, não dá tempo da gente se divertir. O prefeito Ricardo Nunes, cercado por homens, se acha engraçado quando diz num vídeo: “Ô Eduardo Paes, parabéns pelo segundo maior Carnaval”.


Meu nome é Lira. Eu sou a Lira. E estou aqui para conversar com vocês sobre as movimentações que a gente tem que fazer para defender o Carnaval de rua. Já tiveram muitas ondas de nascimentos, mortes e renascimentos do Carnaval. Se olharmos historicamente, há processos, desde o Intrudo, passando pelos cordões, em que o Carnaval cresce, em que populares anônimos organizam essa festa e são massacrados, ou pelo poder econômico, ou pela força bruta do Estado, ou pelos dois ao mesmo tempo.


Como conta o mestre imortal Plínio Marcos: “Quando ia juntando gente, juntando gente, juntando gente, esse trio de couro saía lá da Barra Funda, do Largo da Banana até a Alameda Glete, que também era Barra Funda. Ia juntando gente, quando chegava na Glete já tinha 2.000 componentes o trio de couro e aí a polícia baixava o chanfrado. Naquele tempo era assim”.


Tem repressão! No último ano, a GCM foi mais violenta do que a Polícia Militar, você acredita? E isso daí é ordem que vem de onde? Vem de algum lugar.

Esse último processo de renascimento, ouso dizer que começou ali nos anos 1980, que foi quando o Vai Quem Quer nasceu, e foi quando eu nasci também, junto com o bloco. Mas ele cresceu principalmente a partir dos anos 2000 e nos anos 2010 foi quando teve um grande salto de crescimento, em número de blocos e em número de pessoas. Há uma efervescência que vinha num processo de crescimento muito grande, desde o processo principalmente de legalização do Carnaval, porque até 2013 o Carnaval acontecia sem nenhum tipo de apoio, suporte ou até autorização do poder público. Mas principalmente depois de 2016, 2017, temos esse processo de sufocamento dessa expressão original em favorecimento da ampliação desse pseudo Carnaval-mercadoria.


Eles não sabem de Carnaval, eles sabem de balada, porque é o que eles conhecem, é como eles são felizes. Eu não sou contra as pessoas serem felizes na balada. Agora, querer transformar o Carnaval de rua da cidade numa grande balada céu aberto, que tem que acabar às 6 horas da tarde, porque você quer que as pessoas vão para as baladas privadas, isso é um desrespeito, é uma afronta a quem está há décadas construindo o Carnaval de rua desta cidade.


“Carnaval popular. Carnaval não é mercadoria. O Carnaval é a festa da liberdade. E para a classe trabalhadora poder brincar, ele precisa acontecer à noite. A noite é do Carnaval e o Carnaval é da noite”.


O que está acontecendo é uma nova onda de tentativa de enquadramento dos blocos dentro de um modelo que seja economicamente interessante para grandes empresas e para os poderosos de plantão, basicamente


“No fundo, no fundo, o que ele quer é dinheiro e mais dinheiro. E aí não importa se é Carnaval, não importa se é LGBT, não importa se é coisa que ele odeia, se está dando dinheiro, ele está gostando”.


“Ô Nunes tchau, Nunes tchau, Nunes tchau, tchau, tchau. O Ricardinho vai passar e o Carnaval continuar”.


Na verdade, o que eles fazem é transformar tudo em um mega evento. E aí eles tentam colocar o padrão do mega evento para funcionar em blocos que são cultura popular, não são organizados por produtoras, não são coisas para atrair milhões de pessoas, são blocos diversos, que não têm capacidade de se organizar com muita antecedência.


Eles dizem: “Ai, vocês que querem apoio do poder público para sair são acomodados”. Mas ele não vai contar que a política que ele foi construindo tirou toda a possibilidade dos blocos de terem apoio dos comércios locais, os apoios que eram construídos antes, porque hoje você tem uma grande patrocinadora que vai lá e vai enfiar um patrocínio de bet no seu bloco e de repente o seu bloco não quer, só que você não tem nem essa opção, porque não foi você que escolheu. E aí você tem uma bet fazendo propaganda no seu bloco, mas você não ganha nada com isso, você tem uma cervejaria fazendo propaganda no seu bloco, e você não ganha nada com isso.

Eles escolhem uma cor que é a cor da marca que eles resolvem que vai vender esse verão. Eles fecham os blocos em cercadinhos.


“Perdi tudo meu lucro aqui, ó. Só quem faturou esse ano foi Ambev e a prefeitura, porque o trabalhador mesmo foi prejudicado.”

 

E isso vai definhando o Carnaval verdadeiro, construído pelos anônimos das classes populares, que é um Carnaval que é diverso, não o maior, mas eu acredito que seja o mais diverso do nosso país, porque você tem expressão cultural de todos os lugares do mundo no Carnaval de rua de São Paulo. Mas isso vem junto com o processo de tentar cooptar os blocos para dentro de um modelo que funciona bem para entregar pro patrocinador da festa. E aí vira evento, né? Evento é diferente de festa popular.


“A verdade é que só existe o carnaval de rua nas dimensões que ele existe, porque tem milhares de anônimos populares há décadas fazendo essa festa aqui. Então você não pode simplesmente ignorar tudo isso e passar um mega trio elétrico por cima dos bloquinhos. Agora, não se engane, os Carnavais dos outros lugares do Brasil são processos diferentes, mas está todo mundo sofrendo do mesmo mal. “


Dá para continuar fazendo o Carnaval do jeito que eles dizem que não pode. Dizem que não pode ter Carnaval de rua à noite, mas manifestação política pode. E uma manifestação política, ela pode ter a forma de um Carnaval. Tem muito bloco que sai sem inscrição na prefeitura já, né? inclusive por causa das regras que eles impõem, que são impossíveis de serem praticadas. O Carnaval de rua de São Paulo sempre foi e sempre vai ser muita luta contra as elites ignorantes que a gente tem aqui, porque a gente tem uma elite que não consegue reconhecer a importância e a potência da criatividade popular que faz essa festa se reinventar o tempo inteiro.


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Lira Alli é professore de Artes na rede municipal de SP, mestrande em Carnaval de rua na ECA/USP, sindicaliste e integrante do bloco Vai Quem Quer, que tem sua história contada no livro "40 anos do glorioso Vai Quem Quer", de Pato Papaterra, publicado pela Terra Redonda Editora. A versão ebook (PDF) desse livro é distribuída gratuitamente em nosso site.

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