Por uma Educação intercultural e decolonial
- terraredondaltda
- 19 de nov.
- 4 min de leitura
Iglésio de Jesus Silva (Thyrry Yatso), na Revista Pirry, 10ª edição, Ministério da Cultura

Meu nome é Iglésio de Jesus Silva, indígena pertencente aos povos Fulni-ô e Pataxó Hãhãhãe. Meu nome indígena é Thyrry Yatso.
Sou formado em Ciências Humanas pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA) – Campus Porto Seguro (BA) e especialista em Docência do Ensino de História e em Docência do Ensino Superior.
Atualmente, curso o Mestrado em Educação Contemporânea na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Campus Agreste, no município de Caruaru (PE).
Atuo na área da educação desde os 18 anos, sempre dedicado à docência.
Sou escritor, autor dos títulos "A saga do Cacique Galdino e seu povo Pataxó Hãhãhãe" e "João de Barro", ambos reunidos em um volume pela Terra Redonda Editora.
Somos natureza!
Proponho uma reflexão crítica sobre o papel da educação na transformação social, com base nos pensamentos de Boaventura de Sousa Santos, Ailton Krenak, Catherine Walsh e Fidel Tubino.
A crítica à razão moderna ocidental e à lógica colonial ainda vigente nas políticas públicas brasileiras serve como pano de fundo para defender uma educação pluriepistêmica, intercultural, comunitária e decolonial.
A partir de uma narrativa ancorada na vivência e na ancestralidade dos povos tradicionais, o texto afirma a educação como caminho de resistência, reexistência e libertação.
Por uma Educação Emancipatória, Decolonial e Enraizada nos Saberes do Povo
Boaventura de Sousa Santos, ao denunciar a "razão indolente" – uma racionalidade dominante herdada do Iluminismo e legitimada pela ciência ocidental –, convoca-nos a refletir sobre as exclusões produzidas pelo que se entende por conhecimento legítimo.
Essa razão, conforme ele explica, não é preguiçosa por ignorância, mas por recusa ativa em escutar e reconhecer os saberes que florescem fora do cânone eurocêntrico (SANTOS, 2000).
Sua proposta da epistemologia do Sul é um gesto político, ético e cognitivo.
Trata-se de reconhecer e valorizar os saberes historicamente silenciados – indígenas, africanos, camponeses, quilombolas, populares –, não como folclore, mas como epistemologias completas e legítimas.
Isso exige romper com a monocultura do saber e desafiar as estruturas estatais que, ainda hoje, impõem currículos escolares que ignoram a diversidade epistêmica do país.
Nas escolas brasileiras, vemos uma constante tentativa de substituir os currículos próprios das comunidades por conteúdos que ignoram os territórios, os corpos, as lutas e a ancestralidade.
O Estado diz: “só é conhecimento aquilo que reconhecemos como tal”.
E o resto é invisibilizado. Contra esse projeto de silenciamento, as comunidades resistem. Elas ensinam que se aprende com a terra, com os cantos, com os corpos e com os rituais. Ensinar e aprender são atos espirituais, corporais e comunitários. Essa pedagogia ancestral não cabe no formato estreito da razão ocidental.
Por isso, propomos uma educação decolonial, intercultural e antirracista – uma educação que se comprometa com a justiça social.
Ailton Krenak (2019) reforça essa crítica. Ele denuncia o colapso ético e espiritual da humanidade e pergunta: “por que gritamos agora com a queda, se ela começou há muito tempo?”.
Os povos originários caem há mais de 500 anos, mas caem de pé, resistindo.
Ainda hoje, o Brasil abriga mais de 250 etnias e 184 línguas vivas. Cada uma delas é um mundo. Um território de saber e de vida. É inaceitável que esses mundos sejam tratados como marginais pela educação formal.
Esses saberes precisam ocupar os currículos escolares e universitários.
O conhecimento quilombola, ribeirinho, afrodescendente, periférico é ciência. É filosofia. É política. É pedagogia. Como diz Krenak: os rios são sagrados, a mata é sagrada. O território é vivo. A escuta desses territórios pode adiar o fim do mundo – ou reinventá-lo.
Por isso, não basta reconhecer a diversidade cultural. É preciso garantir as condições materiais e simbólicas para que todas as culturas possam existir com autonomia e dignidade.
Catherine Walsh (2009) chama isso de pedagogia decolonial. Mais que um método, é um compromisso com a transformação das relações de poder e com o reconhecimento das subjetividades subalternizadas.
Fidel Tubino e outros autores alertam contra a interculturalidade funcional – aquela que suaviza as tensões sem mudar as estruturas.
Essa abordagem esvazia o sentido político da interculturalidade, tratando-a como política compensatória. O que defendemos é a interculturalidade crítica, que transforma, denuncia e constrói.
Essa crítica deve estar presente nas políticas públicas!
Não se trata de favor, mas de direito.
Não se trata de incluir o outro, mas de transformar o todo.
A educação que queremos parte da escuta dos povos e respeita seus modos próprios de aprender. Como educador e indígena, afirmo: não queremos nos integrar ao sistema para sermos assimilados. Queremos fortalecer nossos territórios epistêmicos e dialogar em pé de igualdade.
A escola, quando colonizadora, mata. Mas a escola, quando transformada, pode curar. Pode semear. Pode libertar.
A educação que transforma é a que cruza saberes – o saber acadêmico com o saber da floresta, da aldeia, do quilombo, da periferia. A que constrói pontes entre mundos.
A que respeita o tempo da vida.
É urgente dizer ao Estado, à sociedade civil, às universidades e aos poderes públicos: não há transformação social sem os saberes do povo. Não se faz ciência sem pluralidade.
Não se constrói democracia sem justiça epistêmica. É tempo de descolonizar a escola e reconhecer que o Brasil é feito de muitos Brasis.
Como nos ensina a ancestralidade: ninguém caminha sozinho. Só há futuro com memória. E só há justiça com escuta. A luta continua.
Referências
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crítica da Razão Indolente: Contra o Desperdícioda Experiência. São Paulo: Cortez, 2000. WALSH, Catherine. Interculturalidade, descolonização e pensamento crítico latino-americano. In: WALSH, Catherine (org.). Interculturalidade, decolonialidade e educação. São Paulo: Vozes, 2009. TUBINO, Fidel. Interculturalidade, Estado e Educação. Brasília: Unesco, 2004.

____________
Iglésio de Jesus Silva (Thyrry Yatso) é escritor, professor e autor da Terra Redonda Editora.







Comentários