O conto a seguir é inspirado no álbum de música instrumental brasileira Tucanuçu, lançado em Brasília pelo bandolinista Tiago Tunes e pelo violonista Victor Ramon. O álbum possui 10 faixas, a maioria delas reunindo bandolim de 10 cordas, violão e percussão, sendo que algumas trazem instrumentos diferentes e participações de outros instrumentistas. A iniciativa de lançar um álbum musical completo veio na contramão da tendência contemporânea de lançamentos de singles em sequência, incentivada pelo mercado e pelas plataformas de streaming, e adotada por grande parte dos músicos e artistas. Embora a música contenha muitos elementos da matemática, ela jamais se resumirá a isso, de tal modo que o formato de álbum, com músicas que se relacionam entre si e se complementam, amplia o sentido e o significado da arte apresentada. Isso se dá porque, na música, um mais um é sempre mais do que dois. Então, dez faixas articuladas num enredo em formato de álbum trazem maior riqueza e maior profundidade do que o lançamento das faixas uma a uma, desconectadas entre si. No mesmo sentido está o conceito ecológico enunciado como “lei das propriedades emergentes”, que afirma que da relação entre indivíduos, espécies e comunidades emergem propriedades ecológicas que não estariam presentes caso suas existências fossem isoladas. Dessa maneira, o álbum Tucanuçu, com sua motivação ecológica, representa uma resistência artística a uma tendência mercadológica desagregadora que empobrece o patrimônio musical da humanidade. Como desdobramento do magnífico trabalho musical apresentado no álbum Tucanuçu, fui chamada a escrever um texto literário para as músicas que o compõem. O tema Tucanuçu e outras aves foi escolha dos músicos e as melodias de fato parecem tecer voos fluidos, tais como os das aves. Escrevi um conto que é inclusive um manifesto ecológico, diante dos tantos episódios assustadores de problemas ambientais gravíssimos que vêm ocorrendo nos quatro cantos do nosso planeta redondo. O conto também se inspira em um artigo científico que descreve uma relação ecológica altamente complexa entre as aves Tucanuçu e Arara-Azul e a bela árvore Manduvi, espécies da fauna e da flora do pantanal e do cerrado. Trouxe também fragmentos do pensamento de dois grandes intelectuais dos povos originários da América do Sul, Davi Kopenawa e Ailton Krenak, que tecem críticas bastante pertinentes ao modelo civilizacional industrial predatório, responsável pela degradação ambiental que está extinguindo espécies, alterando ecossistemas, destruindo recursos naturais e levando todo o planeta a um caos climático extremamente preocupante. Como conto literário, não abri mão de matizes de magia e encantamento para contar a história do Tucanuçu com a Arara-Azul e o Manduvi, com desejo de que nos apaixonemos perdidamente por eles e pela beleza e a riqueza do ambiente natural ao nosso redor. A experiência completa do conteúdo deste livro se dará com a escuta do álbum simultânea à leitura, visando uma imersão profunda em um universo musical, literário, imagético e artístico, sendo tal profundidade também uma forma de resistência à superficialidade das telas que pretendem achatar toda a nossa existência em planos bidimensionais. É papel da arte resistir a todos esses movimentos que depauperam nossa humanidade. Junto com esses músicos incríveis, apresento aqui minha contribuição. O álbum Tucanuçu está disponível em todas as plataformas digitais. Ouça! Gabriela Tunes
TUCANUÇU
Sumário
Apresentação Revoar Caravana dos pássaros Quintal Pelo ar Flutuante (A dança da Vida e da Morte) Vou livre Solar Manduvi Araçari De tarde na rede Inspirações

