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Livro reúne 17 contistas vencedores do 3º Concurso Literário da Revista PUB

Guilherme Purvin


A relação entre o ser humano e o ambiente sempre esteve presente nas manifestações artísticas ao longo da história. A “natureza”, em seu sentido de “não humano”, constitui elemento de identificação espacial, quando não argamassa da estrutura de romances, contos, poemas e ensaios.


No Brasil, a natureza exuberante era exaltada desde as primeiras cartas e relatos de viagem. É no século XX, porém, que se começa a sentir no Brasil a decadência do mundo rural, mais próximo à natureza, e o avanço implacável da urbanização. Na década de 1960, o então chamado Primeiro Mundo se defrontava com questões que iam além das migrações rurais. Tratava-se agora da possibilidade de extinção em massa das espécies e até mesmo de extermínio das próprias condições que propiciam a vida humana na Terra. As bombas atômicas atiradas pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki (1945), o derramamento de petróleo em alto mar pelo navio Torrey Canyon (1967), a nuvem de fumaça tóxica que dizimou milhares de pessoas em Londres (1952), a dispersão de produtos químicos na agricultura provocando o envenenamento de aves (Silent Spring, 1962) eram alguns dos temas que se apresentavam ladeando questões sociais como a desigualdade econômica, o feminismo e o racismo.


Nessa mesma época formava-se um novo ramo jurídico, o Direito Ambiental (ou Ecológico, como propunha Diogo de Figueiredo Moreira Neto em obra pioneira), como resposta à convocação feita em 1972 pela ONU. Naquele ano, em Estocolmo, países de todo o mundo haviam se reunido para discutir pela primeira vez a temática ambiental numa Conferência sobre Meio Ambiente Humano.


Estas questões não foram ignoradas por nossos poetas, compositores populares e romancistas. Nessa mesma época começaram a surgir estudos no âmbito da Teoria Literária incorporando essa nova perspectiva ecológica. Na Inglaterra e nos Estados Unidos prosperou uma nova corrente à qual foi o dado o nome de Ecocriticism – Ecocrítica.


É nesta perspectiva que vem a lume esta obra, trazendo dezessete contos selecionados num universo de 130 concorrentes do 3º Concurso Literário da Revista PUB – Diálogos Interdisciplinares. Promovido pelo Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (IBAP) em parceria com a Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil (APRODAB) e com o apoio do Grupo de Pesquisa sobre Ecologia, Literatura e Direito Ambiental – REDE GP-ELIDA, da Associação para o Estudo da Literatura e Meio Ambiente do Brasil (ASLE-Brasil) e dos Departamentos de Letras Modernas e de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP, do SINAFRESP - Sindicato dos Agentes Fiscais de Rendas do Estado de São Paulo e do SINDIPROESP- Sindicato dos Procuradores do Estado, das Autarquias, das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo, o concurso teve por finalidade de estimular e valorizar a leitura e a produção literária de contistas no contexto das mudanças climáticas e da proteção da biodiversidade.


Em 2021, o patrono escolhido para o concurso foi o escritor amazonense Márcio Souza, autor dos romances Galvez Imperador do Acre e Mad Maria, dentre outros, além de contos, ensaios, peças de teatro e roteiros de cinema.


Os contos concorrentes versaram, direta, indireta ou tangencialmente, sobre ao menos um aspecto atinente ao tema do concurso, tais como: aquecimento global; refugiados ambientais; poluição das águas, do ar e do solo nas cidades; contaminação por produtos químicos; destruição das florestas; extinção de espécies; maus tratos contra animais; racismo ambiental; ecofeminismo; relação dos povos originários, comunidades quilombolas, seringueiros, caiçaras e populações tradicionais em geral com o meio ambiente; pandemia e crise ecológica planetária; agrotóxicos e pesticidas; monoculturas; êxodo rural; doenças do trabalho; injustiça socioambiental; poluição luminosa etc.


Sua seleção foi feita por uma Comissão Julgadora, composta por membros ad hoc, constituída por associados do IBAP e da APRODAB e por professores especializados na área de Letras e/ou pessoas de renome na área editorial e literária: Adriana Iozzi Klein, Professora Letras/USP e membro do IBAP; Ana Cecília Arias Olmos, Professora Letras/USP; Anamaria Grunfeld Villaça Koch, Advogada/SP (IBAP); Carlos Frederico Marés de Souza Filho, Advogado/PR (IBAP); Celso Augusto Coccaro Filho, Advogado/SP (IBAP); Daniel Ferraz, Professor Letras/USP; Deusa Maria de Souza Pinheiro Passo, Professora Letras/USP; Elizabeth Harkot de la Taille, Prof. Letras/USP e membro do IBAP; Fernanda Leão de Almeida, Promotora de Justiça/SP (IBAP); Fernanda Menna Pinto Peres, Juíza de Direito/SP (IBAP e APRODAB); Jorge de Almeida, Prof. Letras (USP); José Nuzzi Neto, Procurador de Autarquia/SP (IBAP / APRODAB), Lindamir Monteiro da Silva, Geógrafa e Advogada/SP (IBAP); Luciano J. Alvarenga, Prof. Direito (APRODAB); Lyssandro Norton Siqueira, Procurador do Estado/MG (IBAP / APRODAB); Márcio Matiassi Cantarin, Prof. Letras (UTFPR / ASLE Brasil); Maximiliano Kucera Neto, Procurador do Estado/RS (IBAP); Paulo Fernando Esteves de Alvarenga II, Defensor Público/SP (IBAP); Roberta Oliveira Lima, Prof. Direito (APRODAB); Roberto Araujo (Ed. Europa); Sandra Guardini Vasconcelos, Prof. Letras (USP); Sheila Cavalcante Pitombeira, Procuradora de Justiça/CE (IBAP e APRODAB) e Thiago Rhys Bezerra Cass, Prof. Letras (UFRJ).


Esperamos que esta nova obra contribua, no campo da Ecocrítica, para a formação de um corpus literário mais amplo no Brasil, fomentando um diálogo produtivo entre Literatura e Direito Ambiental, com vistas à conscientização ecológica de todos.


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Guilherme Purvin (organizador), graduado em Letras (FFLCH-USP). Doutor em Direito Ambiental (FDUSP). No campo da escrita criativa, é autor dos livros de contos “Virando o Ipiranga”, “Sambas & Polonaises” e “Laboratório de Manipulação”.

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