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A Academia não está preparada para tratar sobre raça

Débora Fernandes, no prólogo de seu livro [IN]FORMALIDADE, em que dialoga as escritoras negras Carolina de Jesus, brasileira, e Françoise Ega, francesa, e analisa a construção sociorracial urbana de Paris e São Paulo e os fenômenos de exclusão que as conectam.


A Academia não está preparada para tratar sobre raça. A Academia não está preparada para acolher quem é raça, quem debate sobre raça e quem luta pelo seu espaço.


Digo ser raça não no sentido de carregar um peso, de ser mártir. Mas no sentido de ser reconhecido no espaço sociourbano como negro, de ter locais na sociedade, na cidade e na própria universidade que são designados conforme a sua posição sociorracial.


A Academia – em especial no contexto brasileiro – não foi historicamente um espaço criado para o sujeito preto e, depois de grandes embates por uma igualdade de acesso, a Academia se vê em um local diferente: com a entrada de estudantes negros, pesquisadores negros, professores negros – que agora deixam de ser a minoria, os outsiders-within, como definiu Joice Berth1 – a Academia se vê obrigada a tratar sobre racismo e a encarar suas próprias falhas. A academia é racista.


Quando uma estudante negra decide falar sobre a dinâmica de raças e suas consequências sociourbanas, ela não trata o tema apenas como objeto de pesquisa, esse é o momento de abordar suas próprias vivências e explorar suas raízes. O objetivo é sim expor, mas também compreender e – porque não? – mudar. Mas

essa mudança não vem sem embates.


Ser negra na universidade é travar uma intensa batalha com o meio onde se vive e o meio onde se estuda. A Universidade de São Paulo, como o próprio Flavio Villaça (2012) realçou, não está na periferia da cidade, os instrumentos de Estado pouco se concentram nesses locais, por motivos que a presente pesquisa buscou desenvolver.


A USP tem suas origens no projeto de emancipação de São Paulo – decorrente da derrota na Revolução de 1932 – como um espaço de formação da elite branca dominante, numa sociedade que havia pouco deixado de ser escravocrata, e ainda carregava – como carrega até hoje – sua herança. A USP nasceu como um projeto das elites brancas paulistas e, hoje, sua localização em área central e nobre da cidade, longe da periferia, como indicou Flávio Villaça (2012), só reforça sua lógica elitista.


O que me importa colocar neste momento é que ser mulher/negra na universidade é viver a cidade, seus embates de classe, raça e gênero, diariamente. Não se escolhe o que vivenciar, ao longo do trajeto a periferia dá espaço para os prédios do centro, seus escritórios, seus espaços de lazer... Existe um contraste visível entre o local negro e local branco em São Paulo. Por isso, trato a cidade por territórios, concordando com a definição de Raquel Rolnik (1997), pela qual estes atribuem características de civilidade e cidadania conforme os grupos que o ocupam. São

Paulo é evidencia dessa relação.


O trajeto, que não se conta em quilômetros, mas em horas, escancara na janela do transporte público a segregação. Ao longo da graduação, li diversos livros que diziam que essa distância se devia ao “espraiamento de desenvolvimento urbano”, mas quero terminar minha formação reformulando essa frase: essa distância se deve ao racismo estrutural que fundamenta o desenvolvimento urbano, no que Silvio Almeida (2019) definiu como elemento que integra a organização política, econômica e social da sociedade.


Nesse sentido, acho irônico o medo do termo raça, que me acompanhou durante toda a graduação. O medo do ser negro (e nessa palavra insiro o verbo e o substantivo, ou seja, tanto o indivíduo quanto sua posição na sociedade). Paris me mostrou, que esse medo não é brasileiro, mas globalizado. No entanto, cada região

tem suas formas raciais estabelecidas, que se originam em processos históricos muito distintos, mas acabam desenvolvendo fenômenos de exclusão semelhantes.


A Academia não está preparada para tratar sobre raça e vai buscar justificar sua posição, responsabilizando o indivíduo racializado. Mas não é função desse indivíduo educar, é função da Academia abrir espaços de estudo, de conhecimento, evidenciar

a segregação e construir um espaço que suscite o debate e a mudança. Tratar sobre o racismo não é apenas uma análise, é resistência, é permanência, é falar do que somos e do que queremos ser. Não posso “decidir” não falar sobre isso, porque

esteja onde eu estiver, eu carrego o que sou: mulher negra, latina e periférica.


Opressões não se sobrepõem, são somadas. Como enfatizou Guimarães (2009), opressões podem ser articuladas, mas nunca poderão ser analisadas de forma dissociada. Paris, assim como São Paulo, evidenciam essa realidade. Na França, a miscigenação não foi tão forte quanto no Brasil – devido a sua posição de

país colonizador escravagista e não de colônia escravizada. Logo, o colorismo não é tão debatido (o que Paulina Alberto, 2017, realçou em seu livro, como as elites brasileiras, miscigenadas demais para a Europa, espelham distorcidamente os conceitos do dito primeiro mundo. Mesmo o racismo no Brasil é diferente do que é

na Europa e nos EUA).


Mais recentemente, a miscigenação tem sido debatida na França, um processo moderno que aproxima os países, mas que na França, devido a seu histórico colonizador, ainda está no início. Isso tem reflexo sobre mim e minha posição na sociedade francesa: eu não tenho local definido aqui. Eu não sou negra,

mas também não sou branca... Eu sou eternamente bronzée.


Isso ocorre porque raça não é uma questão biológica, raça é sociocultural. Não se dissocia ser negro do meio em que se vive. Eu sou mulher negra onde quer que eu vá, porque, no meio em que me formei, a sociedade me evidenciou como tal. Paris, mesmo não tendo uma “caixinha certa” para me colocar, me racializou como mulher, como imigrante latina e miscigenada, me segregando de determinados espaços, um espelho dos processos capitalistas de formação urbana.


Agora me parece estranho ter ficado surpresa com essa situação de desencaixe. Ser negro não é um sujeito universal, não existem “O racismo”, “O negro”, “O movimento negro”. Esses termos são plurais, porque são diferentes os países, as sociedades, os territórios. Isso eu não aprendi na universidade, assim como não tive contato com arquitetos negros ou com o continente africano, se não pela sua pobreza.


A Academia não está pronta para discutir seu racismo interno, sua participação na racialização do espaço urbano. Mas esse assunto é tratado aqui não para apontar responsáveis, mas para evidenciar uma atuação e também uma alternativa a isso. Enquanto não explicitarmos o papel do planejamento urbano na divisão racial do espaço e dos investimentos urbanos, estaremos fadados a perpetuar ciclos de expulsão e segregação, que se mantêm desde o fim da escravidão.


A ação assertiva é necessária neste momento, mesmo que o ambiente universitário se mostre tantas vezes reticente à mudança. Essa mudança vem, quanto a isso não existe dúvida. Somos parte dessa onda e ela não tem nenhum outro caminho a seguir

que não seja o crescimento.


A Academia não está pronta para isso, nunca vai estar, mas cabe a nós, estudantes, professores e demais membros da universidade, estabelecer nosso lugar, o lugar da negritude. Esta pesquisa, portanto, não serve apenas para marcar minha passagem de aluna para arquiteta-urbanista, mas serve para fortificar o meu lugar e de tantos estudantes na universidade pública brasileira. Faço isso não só por mim, mas para aqueles que lutaram pelo espaço que ocupo agora e para abrir ainda mais caminhos para os que virão.


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Débora Fernandes é paulistana, nasceu e cresceu no Jardim Danfer, distrito de Cangaíba, Zona Leste de São Paulo.  Cursou o 2º grau na Escola Técnica Estadual Martin Luther King, MLK, no Tatuapé. Ingressou na graduação em arquitetura e urbanismo na FAUUSP em 2015, fazendo parte da primeira turma de alunos cotistas da Universidade de São Paulo. Durante a graduação, foi estagiária na Coordenadoria de Regularização Fundiária da Secretaria de Habitação (Sehab) do Município de São Paulo e num intercâmbio na École D’Architecture de la Ville et des Territoires de Marne La Vallée - EAVT. Vive em Paris desde 2019, onde trabalhou de garçonete, babá e estagiária em escritórios de arquitetura e urbanismo, enquanto cursava o Master 1 da École d’Urbanisme de Paris (EUP), concluído em 2023.

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